A saúde humana resulta da interação complexa entre fatores biológicos, sociais, emocionais e ambientais.
A epigenética aplicada à saúde demonstra como as circunstâncias de vida modulam a expressão gênica sem alterar o DNA, influenciando a vulnerabilidade a doenças metabólicas, mentais, inflamatórias e degenerativas.
A mobilidade humana e a adaptação a novos ambientes expõem os indivíduos a determinantes que afetam a função mitocondrial, os processos de mecanotransdução (piezo1/piezo2) e as respostas emocionais ao estresse crônico.
Este artigo apresenta uma revisão científica integrada sobre prevenção primordial, combinando epigenética social e comportamental com estratégias de saúde sustentável.
São abordados mecanismos biológicos, sociais e emocionais, propondo diretrizes de intervenção clínica, comunitária e global.
Introdução
A saúde sustentável transcende a medicina curativa, integrando determinantes sociais, emocionais, nutricionais, ambientais e geopolíticos, que moldam o bem-estar de forma interdependente.
Num mundo globalizado, indivíduos em constante mobilidade enfrentam desafios que influenciam a sua biologia de forma complexa, incluindo alterações epigenéticas, disfunção mitocondrial e respostas emocionais adversas(1, 2).
A prevenção primordial torna-se, assim, essencial para promover resiliência biológica e assegurar um bem-estar integral antes do surgimento de fatores de risco.
Epigenética social e comportamental
A epigenética evidencia que fatores externos e internos podem alterar a expressão gênica sem modificar a sequência do DNA(3–5).
Metilação de DNA: regula genes envolvidos no estresse, inflamação e metabolismo energético. Alterações nessa via associam-se à desregulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), síndrome metabólica e depressão(6, 7).
MicroRNAs e modificações de histonas: os microRNAs modulam respostas imunológicas e metabólicas(8), enquanto as modificações de histonas influenciam a acessibilidade do genoma(9).
Metabolismo de um carbono (combustível químico): integra SAM, acetil-CoA e NAD+, essenciais para metilação e acetilação epigenética(10). Deficiências nutricionais em folato, B12, metionina ou niacina impactam diretamente a expressão epigenética e a função mitocondrial.
Mobilidade humana e determinantes de saúde
A mobilidade humana expõe os indivíduos a diferentes contextos culturais, nutricionais e socioeconômicos.
Esses fatores sociais e comportamentais moldam o epigenoma, influenciam a mitocôndria e modulam respostas emocionais(11–15).
Pré-deslocação: fatores como pobreza, subnutrição, violência e ausência de cuidados médicos programam alterações epigenéticas precoces, impactando genes como NR3C1 e FKBP5, essenciais na regulação do cortisol e do estresse(6, 7, 12).
Durante a migração: fome, trauma, interrupção de terapias e privação de sono provocam ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), inflamação sistêmica e perda de diversidade da microbiota, aumentando a vulnerabilidade a doenças metabólicas e infeciosas(11, 15).
Pós-deslocação: mudanças alimentares, insegurança alimentar, discriminação e sedentarismo cronificam o estresse, desregulam a função mitocondrial e aumentam o risco de doenças cardiovasculares, metabólicas e mentais(13–15).
Estresse, emoções e frequências vibracionais
Emoções negativas crônicas (medo, tristeza, vergonha) reduzem NAD+, aumentam ROS e prejudicam a reparação mitocondrial; enquanto emoções positivas (esperança, gratidão, pertença) melhoram a coerência cardíaca, a plasticidade neuronal e a função mitocondrial(16–18, 25).
A psiconeuroimunologia evidencia o papel dessas dinâmicas na modulação epigenética e na saúde integral(16–18).
Mitocôndria como sensor integrador
As mitocôndrias respondem à nutrição, ao movimento, ao estresse e às toxinas(19, 20).
Disfunção mitocondrial: a disfunção mitocondrial aumenta ROS, inflamação e acelera o envelhecimento celular(19) .
Suplementação ou medicação estratégica: magnésio, coenzima Q10, polifenóis, ômega-3 e hábitos de vida saudáveis favorecem a biogênese e a funcionalidade mitocondrial(23).
Piezoeletricidade: o papel do movimento na medicina e epigenética
Piezo1 e piezo2: os canais mecanossensíveis piezo1 e piezo2 convertem estímulos mecânicos em sinais químicos que regulam a homeostase do cálcio e ativam AMPK e PGC-1α, promovendo saúde mitocondrial e plasticidade imunometabólica(21, 22).
Movimento e exercício: o sedentarismo silencia essas vias protetoras, enquanto atividades como caminhada, dança, yoga e exercícios funcionais restauram a sinalização, promovendo benefícios epigenéticos e metabólicos(21).
Prevenção primordial integrativa
Dimensão biológica: nutrição rica em alimentos frescos, micronutrientes e fitoquímicos.
Regulação do sono e ritmos circadianos: movimento diário estimulando piezo1 e piezo2 e suporte mitocondrial via suplementação ou medicação estratégica.
Dimensão social: construção de comunidades inclusivas e redes de suporte emocional; espaços seguros para convívio e movimento; acesso equitativo a cuidados de saúde(24, 26, 27).
Dimensão emocional e comportamental: práticas mente-corpo, terapias de apoio ao trauma, intervenção cultural e artística, literacia em saúde, construção de identidade, pertença e resiliência emocional.
Estratégia global e sustentabilidade
A abordagem sistêmica integra prevenção primordial, epigenética, nutrição sustentável e políticas públicas globais(24, 27).
Nesse enquadramento, destaca-se a visão defendida pela Organização das Nações Unidas (ONU), pela Organização Internacional para as Migrações (OIM) e pelo Programa Alimentar Mundial (PAM): a saúde, a segurança alimentar e o bem-estar são pilares inseparáveis da prevenção de conflitos e da gestão humanitária sustentável (ODS) da Agenda 2030.
Os dados da ONU e do PAM mostram que cerca de 300 milhões de pessoas enfrentam vulnerabilidades sérias no acesso a alimentos, sendo que o PAM consegue atualmente cobrir apenas cerca de metade dessas necessidades.
Algumas regiões encontram-se mesmo à beira da classificação internacional de fome(1–5).
Alimentos adaptáveis em contextos vulneráveis: determinados alimentos possuem elevada resiliência agrícola e alta densidade nutricional, sendo estratégicos em situações de guerra, seca, migração forçada ou insegurança alimentar (Basílio, 2024; Boukhers, 2022; Ortiz, 2023; Muñoz-González, 2023; Martínez-González, 2024).
Exemplos: azeite (ácidos gordos/graxos monoinsaturados, vitamina E, polifenóis), mandioca (hidratos de carbono complexos, fibras, vitamina C, cobre, manganês), feijão azuki (proteínas vegetais, ferro, folato, antioxidantes), batata-doce (betacaroteno, vitamina C, potássio), amendoim (proteínas, ácidos gordos/graxos essenciais, polifenóis), cacau (flavonoides, magnésio, ferro) e milho (hidratos de carbono complexos, fibras, carotenoides, vitaminas B).
Benefícios de conservação e consumo: esses alimentos apresentam teor equilibrado de água, numa variante entre 4% e 14%, à exceção do azeite, permitindo uma conservação prolongada, necessidade mínima de água na preparação, estabilidade nutricional e autonomia alimentar em cenários adversos.
Como salientado pela OIM, a persistência da vulnerabilidade alimentar representa uma séria ameaça à saúde pública global e ao bem-estar das gerações futuras.
“A crise global, agravada por conflitos armados, alterações climáticas e instabilidade econômica, gera impactos imediatos e de longo prazo, incluindo aumento de doenças associadas à subnutrição; fragilização do tecido social; maior risco de mortalidade infantil; efeitos epigenéticos transgeracionais; migrações forçadas com populações deslocadas em busca de alimentos” (António Vitorino, 2025).
Conclusão
A compreensão dos fatores de influência epigenética social e comportamental evidencia que a saúde é a expressão biológica das condições sociais, emocionais, culturais e ambientais.
Populações em mobilidade demonstram vulnerabilidade ou resiliência que se inscrevem no epigenoma.
A integração dessa visão na prática clínica e na saúde pública promove adaptação biológica, otimiza a função mitocondrial, reduz inflamação crônica e fortalece a saúde mental e emocional(1–27).
Ao ligar essas dimensões aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável do milênio até 2030, em particular o ODS 3 (saúde e bem-estar), reforça-se uma leitura mais abrangente do conceito de bem-estar humano, alinhada com a perspetiva epigenética e com os debates internacionais, os quais ainda não sublinham suficientemente essa ligação fundamental(1–5).
Proposta global
Inspirada nos princípios da OMS, OIM e ONU, que defendem equidade no acesso a cuidados de saúde, nutrição adequada, habitação digna, segurança, suporte comunitário e psicológico, torna-se vital criar intervenções de formação de multiplicadores regionais e nas comunidades, capazes de difundir o conceito de “Saúde Primordial Sustentável” (SPS), desenvolvido pela autora, como abordagem integrativa de saúde global.
Desafio global
Ao promover a prevenção primordial, cultivam-se condições que favorecem a “paz biológica”, estendendo-se ao equilíbrio emocional e ao bem-estar social.
Comunidades que vivem essa coerência corpo-mente-meio tornam-se mais resilientes, solidárias e capazes de resolver conflitos de forma construtiva.
A saúde sustentável transforma-se num vetor de paz social e contribui para a “paz mundial”, começando na biologia de cada indivíduo e expandindo-se para relações comunitárias e sociedades cooperantes. Uma visão convergente com a abordagem defendida pela ONU e pela OIM nas políticas globais de desenvolvimento humano.
Comentário final
Manuel Pedro Pacavira, no seu livro Nzinga Mbandi (Angola, 1976), lembrava que a paz é possível. O Papa Paulo VI (Vaticano, 1973) dizia que ela precisa viver na consciência humana.
Hoje sabemos que a paz não é só coletiva: ela começa dentro de cada pessoa, no corpo, no pensamento e na atitude.
Os pensadores mundiais Leonardo Boff (Brasil, 1995–1999), Thich Nhat Hanh (Vietnã/EUA, 2006), Dalai Lama (Tibete, 1989), Viktor Frankl (Áustria, 1946), Anabela Valente (Portugal, 2025), António Damásio (Portugal/EUA, 1994–2000), António Vitorino (OIM/Portugal, 2023–2025) e António Guterres (Portugal/ONU, 2025) mostram-no de formas diferentes, mas convergentes: “a paz é um valor essencial e nasce a partir da harmonia interior”.
Nota: Saúde Primordial Sustentável (SPS) é um conceito desenvolvido pela autora, que sintetiza princípios de prevenção primordial integrativa, considerando determinantes sociais, emocionais, nutricionais, ambientais e geopolíticas – Crónicas de Bem Viver, 2017.
Paula Mouta – Presidente do Observatório da Saúde dos Povos – AESEP, diretora da Unidade SER – QUANTUM Global Care, Lisboa e representante em Portugal da AGONAB – Associação Geral da Ordem dos Naturologistas do Brasil.
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