O câncer de mama é uma neoplasia multifatorial fortemente associada à exposição estrogênica cumulativa ao longo da vida.
Evidências recentes demonstram que a microbiota intestinal, por meio do estroboloma, exerce papel central na modulação do metabolismo dos estrogênios, influenciando sua biodisponibilidade e recirculação entero-hepática (Flores et al., 2012; Ohtani; Yoshimoto, 2020).
Paralelamente, a exposição a disruptores endócrinos alimentares, como a zearalenona, e a aditivos químicos industriais, como a azodicarbonamida, pode intensificar a carga estrogênica sistêmica e promover disbiose intestinal (Gao et al., 2020; EFSA, 2016).
O objetivo deste artigo é revisar criticamente a literatura científica nacional e internacional acerca da relação entre estroboloma, disruptores endócrinos e câncer de mama, discutindo seus mecanismos fisiopatológicos e implicações clínicas.
Introdução
O câncer de mama figura entre as principais causas de morbimortalidade feminina no mundo, sendo reconhecidamente influenciado por fatores hormonais, genéticos, metabólicos e ambientais (INCA, 2023).
A exposição prolongada a estrogênios biologicamente ativos constitui um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento dessa neoplasia, especialmente nos tumores hormônio-dependentes.
Avanços na compreensão da microbiota intestinal demonstram que o intestino exerce um papel determinante na regulação hormonal sistêmica por meio do estroboloma, além de atuar como mediador da inflamação e da exposição a compostos ambientais com potencial estrogênico (Flores et al., 2012; Plaug; Hussain; Wang, 2021).
Metodologia
Trata-se de uma revisão narrativa da literatura, realizada em bases de dados nacionais e internacionais (PubMed, Scopus, ScienceDirect e SciELO), considerando publicações entre 2010 e 2024.
Foram utilizados os descritores estrobolome, gut microbiota, estrogen metabolism, endocrine disruptors, zearalenone, azodicarbonamide e breast cancer.
Estroboloma e metabolismo estrogênico
O estroboloma corresponde ao conjunto de microrganismos intestinais capazes de metabolizar estrogênios por meio da produção da enzima β-glucuronidase (Flores et al., 2012).
Em condições de disbiose, ocorre um aumento dessa atividade enzimática, favorecendo a hiper-recirculação de estrogênios biologicamente ativos e caracterizando o hiperestrogenismo funcional, mesmo na ausência de alterações séricas detectáveis (Plaug; Hussain; Wang, 2021; Santos; Silva, 2022).
Inflamação sistêmica e microambiente tumoral
A disfunção do estroboloma associa-se ao aumento da permeabilidade intestinal e à translocação de endotoxinas bacterianas, desencadeando inflamação sistêmica crônica de baixo grau, reconhecida como fator facilitador da carcinogênese mamária (Ohtani; Yoshimoto, 2020; Costa; Oliveira, 2020).
Disruptores endócrinos e modulação do estroboloma
Disruptores endócrinos interferem na ação e no metabolismo hormonal e também alteram a microbiota intestinal, impactando diretamente o estroboloma (Gao et al., 2020; Rodriguez-Gomez et al., 2021).
Destacam-se, nesse contexto, a zearalenona e a azodicarbonamida.
Zearalenona e proliferação mamária
A zearalenona é uma micotoxina produzida por fungos do gênero Fusarium, apresentando elevada afinidade por receptores estrogênicos e sendo classificada como um xenoestrogênio potente (Gao et al., 2020; Grant; Phillips, 2018).
Fontes de zearalenona no Brasil e vias de exposição
No Brasil, condições climáticas tropicais e subtropicais, associadas à elevada umidade e a práticas inadequadas de armazenamento, favorecem a contaminação alimentar por zearalenona (Silva et al., 2021).
As principais fontes incluem milho e derivados, trigo e produtos de panificação, arroz mal armazenado, cevada e produtos maltados, bem como a exposição indireta por alimentos de origem animal provenientes de rações contaminadas (Anvisa, 2019).
A elevada estabilidade térmica da zearalenona contribui para a exposição crônica mesmo após o processamento industrial (Grant; Phillips, 2018).
Azodicarbonamida, disbiose e desregulação estrogênica
A azodicarbonamida (ADA) é um composto químico sintético utilizado como melhorador de farinha e agente expansor industrial.
Embora seu uso direto como aditivo alimentar seja restrito no Brasil, resíduos e subprodutos de degradação ainda podem estar presentes em alimentos ultraprocessados, especialmente pães industrializados, massas instantâneas e biscoitos, além de ocorrer exposição indireta por migração a partir de embalagens plásticas (EFSA, 2016; Anvisa, 2019).
A exposição crônica à ADA está associada à indução de estresse oxidativo e inflamação sistêmica, bem como à alteração da composição da microbiota intestinal, favorecendo a disbiose e o aumento da permeabilidade intestinal (EFSA, 2016).
Exposição à azodicarbonamida no Brasil e implicações metabólicas
No contexto brasileiro, a elevada ingestão de alimentos ultraprocessados, o uso extensivo de embalagens plásticas e a exposição ocupacional em setores de panificação, plásticos e construção civil ampliam o risco de contato contínuo com derivados da azodicarbonamida.
Embora a ADA não atue como xenoestrogênio clássico, seus efeitos indiretos sobre a microbiota intestinal favorecem o aumento da atividade da β-glucuronidase bacteriana, intensificando a recirculação entero-hepática de estrogênios (EFSA, 2016).
Esse cenário contribui para um estado de hiperestrogenismo funcional e inflamação crônica de baixo grau, fatores diretamente implicados na carcinogênese mamária, especialmente em tumores estrogênio-dependentes.
Além disso, a azodicarbonamida pode atuar de forma sinérgica com outros disruptores endócrinos presentes na dieta brasileira, como a zearalenona, potencializando seus efeitos deletérios sobre o eixo intestino–fígado–hormônios.
Discussão
A literatura indica que a interação entre estroboloma disfuncional, exposição alimentar crônica à zearalenona e contato ambiental com azodicarbonamida cria um microambiente favorável à carcinogênese mamária, caracterizado por aumento da carga estrogênica total, inflamação persistente e redução da capacidade de detoxificação hepática (Plaug; Hussain; Wang, 2021; Santos; Silva, 2022).
Conclusão
O estroboloma emerge como mediador central entre microbiota intestinal, metabolismo estrogênico e exposição ambiental.
No contexto brasileiro, a exposição crônica à zearalenona e à azodicarbonamida, associada à disbiose intestinal, contribui para o hiperestrogenismo funcional e inflamação persistente, aumentando o risco de câncer de mama.
Estratégias preventivas devem incluir modulação da microbiota intestinal, redução do consumo de ultraprocessados e controle da exposição alimentar e ambiental a disruptores endócrinos.
Tatiana Silva de Lima Soares – Nutricionista, especialista em Nutrição Funcional e Integrativa e PhD em Naturopatia Clínica.
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