Ozonioterapia: formas de aplicação e benefícios no tratamento complementar de diabetes mellitus

Estima-se que o diabetes mellitus (DM) acometa cerca de 382 milhões de pessoas mundialmente, sendo que esse valor deve subir para 471 milhões de indivíduos até 2035 (SBD, 2014).

Nesse cenário, o diabetes pode saltar da nona para a sétima causa mais importante de morte em todo o mundo até 2030 (Flor, 2017).

Atribui-se o aumento do número de casos a diversos fatores, tais como o envelhecimento da população, a maior urbanização, a elevada prevalência de obesidade e sedentarismo e o aumento da sobrevida dos pacientes já portadores de diabetes mellitus (SBD, 2014; Flor, 2017).

No Brasil, estima-se que 7,5% da população adulta seja portadora de diabetes e verifica-se um aumento da prevalência em faixas etárias mais avançadas (8,5% entre 45-54 anos, 17,1% entre 55-64 anos e 22,1% naqueles ≥ 65 anos) – (Flor, 2017).

Dados brasileiros de 2011 mostram taxas de mortalidade na ordem de 30,1 por 100 mil habitantes, que variam com a faixa etária, sendo mais pronunciadas em pacientes com 60 anos ou mais. Esse valor representa 5,2% das causas de morte no país.

Ademais, o diabetes é fator de risco para as doenças cardiovasculares, que são responsáveis por 31,3% dos óbitos.

No período de 2008 a 2010, estima-se que 12% das hospitalizações e 15,4% dos custos hospitalares do SUS ocorreram por conta do diabetes mellitus (SBD, 2014; Flor, 2017).

Fisiopatologia do diabetes mellitus

Diabetes mellitus é uma designação que abrange um grupo de doenças metabólicas caracterizadas pela hiperglicemia, que pode ser decorrente de defeitos na secreção de insulina, na ação da insulina ou em ambas.

A insulina é um hormônio pancreático liberado em resposta ao aumento da glicemia sérica, ou seja, a glicose circulante no sangue.

Ela atua em receptores específicos de diversas células que fazem o transporte da glicose do sangue para o interior das células.

Na história natural do diabetes do tipo 2, há um fenômeno de resistência à insulina, com necessidade de um aumento progressivo dos níveis desse hormônio para ativar esses receptores de glicose e garantir seu transporte para o meio intracelular.

Em dado momento, o grau de resistência à insulina é tão elevado que o pâncreas não consegue mais secretar níveis adequados de insulina, resultando no diabetes mellitus do tipo 2.

A hiperglicemia crônica provoca lesão em órgãos-alvos, como os rins, nervos, vasos sanguíneos e retina.

O diabetes mellitus do tipo 2, que corresponde a 90%-95% dos casos de DM, acomete principalmente adultos que desenvolvem resistência periférica à insulina e, consequentemente, hiperglicemia crônica.

Nesses indivíduos, verificam-se alterações bioquímicas que levam ao aumento do estresse oxidativo e do dano celular, causando lesões microvasculares e predispondo ao desenvolvimento das complicações da doença.

Esses mecanismos incluem formação de produtos de glicação avançada (AGES), que agem sobre receptores e induzem (1) formação de citocinas pró-inflamatórias, (2) apoptose (morte celular), (3) catabolismo de glicose em sorbitol, diminuindo a síntese de NADPH, o que provoca redução na produção de substâncias antioxidantes, e de óxido nítrico, o que reduz a ação vasodilatadora e promove a agregação plaquetária, (4) aumento da produção de TGF e inibidor de plasminogênio, o que também promove a agregação plaquetária e (5) alteração na quimiotaxia de neutrófilos, o que aumenta a adesão plaquetária ao endotélio vascular e diminui a capacidade de fagocitose.

Os danos vasculares decorrentes da ação dessas substâncias podem levar a diversas complicações, tais como formação de placas de ateroma e seus desfechos (infarto agudo do miocárdio, obstrução venosa periférica com úlceras necróticas e pé diabético), neuropatia, nefropatia e retinopatia diabética.

Dessa forma, analisando a patogênese do diabetes mellitus, verifica-se uma associação entre a hiperglicemia e a produção de espécies reativas de oxigênio (ROS), concomitante ao declínio da capacidade antioxidante endógena.

Tradicionalmente, o tratamento do DM visa à correção da hiperglicemia com alterações de hábito de vida, medicações hipoglicemiantes e/ou insulina.

Apesar de diminuir a incidência de comorbidades, o tratamento medicamentoso tradicional para o diabetes não promove o reequilíbrio do potencial antioxidante do organismo e é dentro desse contexto que a ozonioterapia pode ser aplicada.

Ozonioterapia: origem e usos

Os estudos científicos que identificaram a presença do gás ozônio (O3) na natureza são do século XVIII, na Holanda e Alemanha.

Na natureza, o ozônio é gerado durante tempestades devido à eletricidade das descargas dos raios que reagem com o oxigênio atmosférico.

O gás ozônio é altamente oxidativo e, portanto, tem efeito germicida, bactericida e antiviral.

Com base na engenharia elétrica, foi desenvolvido o gerador de ozônio no início do século XX, quando os primeiros ensaios para tratamento médico também ocorriam na Inglaterra e em Portugal (Bocci, 2010).

O funcionamento do gerador de ozônio é muito simples, por se tratar de um processo de eletrólise que modifica as moléculas do gás oxigênio (O2) em moléculas triatômicas do gás ozônio (O3).

O custo de fabricação de um equipamento para ozonioterapia é muito baixo em relação ao uso e aos efeitos benéficos que oferece à saúde humana.

Trata-se de uma solução efetiva para a situação atual do cenário de saúde da população brasileira, em que seu envelhecimento e longevidade têm elevado os custos das comorbidades, enquanto por outro lado a política fiscal do governo limita o teto dos gastos públicos em saúde.

No período das guerras mundiais, o uso tópico do ozônio era feito em feridas, queimaduras e partes gangrenadas do corpo de soldados.

E, nas décadas seguintes, a utilização medicinal do ozônio evoluiu para o método sistêmico, trazendo benefícios ao metabolismo dos pacientes, que hoje são comprovados cientificamente por inúmeras publicações nos países em que a ozonioterapia é regulamentada como prática médica.

No Brasil, o uso do ozônio em tratamentos veterinários não tem restrições pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Desde 2020, o Conselho Federal de Enfermagem reconhece a ozonioterapia como terapia complementar, a ser administrada por enfermeiros capacitados para a prática.

Da mesma forma, em 2020, o Conselho Federal de Farmácia aprovou uma resolução que autoriza o uso de ozônio por farmacêuticos em tratamentos clínicos e estéticos.

Em fisioterapia e odontologia o uso do ozônio também é regulamentado.

Apesar de serem todas modalidades das ciências da saúde humana, em algumas práticas preventivas e curativas a ozonioterapia é considerada como técnica regular, mas na prática médica não, ainda que os pacientes tratados sejam os mesmos em uma clínica ou outra.

Em 2025, o Conselho Federal de Medicina estabeleceu uma resolução que abre espaço para a aplicação da ozonioterapia como procedimento médico adjuvante, mas somente nas seguintes situações restritas: (1) tratamento de feridas – úlceras venosas crônicas, úlceras arteriais isquêmicas, úlceras de pé diabético e feridas infecciosas agudas e (2) tratamento de dores muscoloesqueléticas – osteoartrite de joelho e dor lombar por hérnia de disco.

Essa inexistência de consenso e o conflito de interesses envolvido no tema impede que a prática centenária da ozonioterapia favoreça de forma mais ampla a população de 217 milhões de brasileiros que, com seu perfil populacional de maior proporção de idosos e longevidade, tem aumentos anuais expressivos nos custos dos tratamentos das comorbidades, como as doenças vasculares, degenerativas e inflamatórias, a artrite e o diabetes.

Ozônio e sua aplicação em medicina

Em 1839, o químico e físico Christian Friedrich Schönbein identificou o ozônio como um composto químico distinto. Ele descobriu que o O3 pode atuar não só como um oxidante, mas também como um desinfetante forte.

Ao final do século XIX, vários relatórios mostraram que o ozônio era capaz de promover a oxidação de um grande número de compostos orgânicos e a inativação de contaminantes bacterianos no esgoto. Essas propriedades levaram ao uso do ozônio como uma alternativa à cloração da água.

Embora o ozônio tenha a capacidade de oxidar compostos orgânicos e de induzir irritação respiratória quando presente como poluente do ar, por outro lado, ele possui um potencial terapêutico com uma ampla aplicabilidade no campo da medicina, extensiva a um grande número de patologias.

Quando administrado em doses terapêuticas precisas, pode ser usado para desinfetar e para tratar doenças, devido à sua capacidade antimicrobiana, de estimulação do metabolismo do oxigênio e de ativação do sistema imunológico (Re et al., 2016).

Durante as últimas décadas, o potencial terapêutico do ozônio ganhou muita atenção, por sua forte capacidade de induzir controle e estresse oxidativo moderado quando administrado em doses precisas.

Efeitos da ozonioterapia em pacientes diabéticos

A terapia com ozônio para o tratamento de diabetes mellitus vem sendo estudada tanto pela aplicação endovenosa quanto pelas vias tópicas.

No primeiro caso, a aplicação endovenosa de sangue ozonizado ativa diversas respostas biológicas sistêmicas, promovendo o reequilíbrio dos mecanismos antioxidativos do organismo.

Os mecanismos de ação do ozônio no sangue são divididos em duas fases: uma fase ex vivo e uma fase in vivo.

Na primeira, cerca de 100 mL a 150 mL de sangue são coletados em um frasco e misturados com um volume equivalente da mistura de oxigênio-ozônio.

Esse contato desencadeia uma série de reações que resultam na formação de peróxido de hidrogênio e aldeídos.

Na segunda fase, após a infusão, o peróxido de hidrogênio entra nas células sanguíneas e leva à ativação de outras reações bioquímicas, dentre elas: (1) ativação da glicólise nos eritrócitos e aumento da síntese de ATP, deslocando a curva de dissociação da oxi-hemoglobina para a direita e, portanto, aumentando a liberação de oxigênio nos tecidos isquêmicos, (2) aumento da atividade fagocitária dos neutrófilos e (3) aumento da liberação de fatores de crescimento plaquetários, melhorando a cicatrização de úlceras periféricas.

Além disso, a infusão de sangue ozonizado estimula a síntese de óxido nítrico pelo endotélio e a liberação de prostaciclina (PGI2), o que promove vasodilatação e melhora a perfusão dos tecidos isquêmicos (Bocci, 2014; Braidy, 2017).

Na terapia tópica, utilizam-se água ou óleos ozonizados aplicados diretamente nas feridas de pés diabéticos.

Esses componentes apresentam ação desinfetante e cicatrizante, pois promovem a síntese e liberação de fatores de crescimento vasculares, como VEGF, TFG-beta e PDGF, melhoram a adesão plaquetária e promovem a liberação de fibroblastos, além de apresentarem propriedades antibacterianas (Kushmakov, 2018).

Considerações finais

A ozonioterapia é uma prática médica centenária com comprovação científica e aprovada em diversos países em todo o mundo, como Alemanha, Portugal, Espanha, Grécia, Turquia, China, Rússia, Cuba e vários estados norte-americanos.

Seu uso tópico comprova os efeitos de cura das feridas de pés diabéticos e o uso sistêmico modula o processo metabólico celular que equilibra a condição do diabetes.

Diante do cenário geral da situação de saúde dos brasileiros, as necessidades preventiva e curativa poderiam ser atendidas de forma apropriada e benéfica com os procedimentos clínicos da ozonioterapia.

As estatísticas clínicas que comprovam a eficácia de suas diversas aplicações indicam uma diminuição dos custos em saúde entre 20% e 80%, sendo esse um dos motivos pelos quais sua utilização regulamentada é ampla em um número expressivo de países.

Ademais, pacientes diabéticos tratados com a técnica da ozonioterapia como complemento à medicina convencional apresentam melhoras expressivas em curto período, ao mesmo tempo em que a condição de sobrevida reduz praticamente na totalidade as necessidades de continuidade no uso de medicamentos e de realização de procedimentos cirúrgicos, incluindo implantes e amputações, com melhoras das condições de convívio familiar, social e profissional.

A medida de benefício aos pacientes em uma escala de 0 a 10 indica que o uso da ozonioterapia em complemento à medicina convencional leva a próximo de 10 a condição de sobrevida dos pacientes assim tratados.

Nota: artigo elaborado com base em excertos do Capítulo 9 – Ozonioterapia: um estudo dos seus impactos econômicos no sistema de saúde SUS no Brasil para o grupo de risco de diabéticos. Novas tecnologias aplicadas à saúde: inovação, internet das coisas, horizontes e desafios, publicado em 2021, pela EDUERN. Fonte: https://portal.uern.br/wp-content/uploads/sites/14/2024/09/E-book-Novas-Tecnologias-Aplicadas-a-Saude.pdf.


Paula Meyer Soares – Professora na FGA-UnB – Universidade de Brasília.

Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa – Professora na FGA-UnB – Universidade de Brasília.

Celina Martins Ramalho – Professora na FGV-SP – Fundação Getúlio Vargas.

Bruna Soares Passanezi – Professora na FAMEMA-Marília-SP – Faculdade de Medicina de Marília.

 

Referências bibliográficas

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