Oligominerais: agentes que orquestram a saúde

Uma dieta verdadeiramente equilibrada faz parte da base sobre a qual a saúde humana é sustentada ao longo da vida, sendo constituída não apenas pelos macronutrientes que fornecem energia, mas também — e com consequências igualmente decisivas — pelos micronutrientes e oligominerais que atuam em quantidades-traço, porém com efeitos macroscopicamente importantes sobre processos fisiológicos, reparo tecidual, função endócrina e defesa imunológica.

Esses oligominerais — também chamados de elementos-traço — incluem íons como zinco, cobre, ferro, selênio, manganês, iodo, cobalto e molibdênio, entre outros.

Embora presentes em quantidades minúsculas no organismo, sua participação em reações enzimáticas, no metabolismo hormonal, na manutenção da integridade do DNA e nas defesas antioxidantes é indispensável.

E tanto a deficiência quanto o excesso desses micronutrientes podem conduzir a disfunções clínicas significativas.

Portanto, a necessidade de uma dieta balanceada não pode ser reduzida a calorias e macronutrientes, pois a composição mineral dos alimentos, sua biodisponibilidade e as interações entre elementos determinam se as vias metabólicas essenciais funcionarão de modo eficiente.

Diretrizes práticas recentes sobre micronutrientes ressaltam que insuficiências são frequentes e que sua avaliação, monitoramento e reposição de forma adequada devem fazer parte da prática clínica, sobretudo em grupos de risco e em situações de doença aguda ou crônica.

Essas recomendações, fruto de consenso internacional, destacam que medir e corrigir estados de deficiência de oligominerais pode reduzir complicações clínicas e melhorar resultados, sem ultrapassar limiares fisiológicos.

Papel dos oligominerais nos diversos mecanismos biomoleculares

Do ponto de vista biomolecular, os oligominerais exercem papéis diversificados: o iodo e o selênio são essenciais para a síntese e regulação dos hormônios tireoidianos, o zinco e o cobre participam como cofatores (auxiliares do funcionamento) em dezenas a centenas de enzimas, o ferro é central no transporte de oxigênio e na cadeia respiratória mitocondrial e o selênio integra selenoproteínas com função.

No eixo tireoide-metabolismo, por exemplo, tem-se que mudanças na disponibilidade desses elementos podem alterar a produção hormonal, modular autoimunidade e até influenciar o risco tumoral da glândula, ilustrando como deficiências de traço têm repercussões clínicas amplas.

A relação entre oligominerais e doenças de pele é outro exemplo prático de como pequenas quantidades influenciam grandes funções. Estudos demonstram perturbações nos níveis séricos (concentrações no soro sanguíneo) e tissulares (concentrações em um tecido orgãnico) de zinco, cobre e ferro em condições como psoríase, dermatite atópica, acne e outras dermatoses.

Essas alterações podem significar duas coisas: que a falta ou o excesso do mineral pode estar ajudando a gerar a patologia ou que a própria doença está alterando os níveis do mineral no corpo.

Assim, do ponto de vista terapêutico, a normalização de estados em que há déficits desses minerais contribui para a melhora clínica em subgrupos de pacientes, ou seja, naqueles com características clínicas muito específicas, reforçando a ideia de que oligominerais são ferramentas potenciais de intervenção preventiva e adjuvantes no manejo de doenças cutâneas.

Ação sobre o sistema imunológico

Mais amplamente, oligominerais são pilares da resposta imunológica: vitaminas e elementos-traço, incluindo zinco, selênio, ferro, cobre e magnésio, atuam em etapas da imunidade inata e adaptativa, sustentando barreiras físicas, a atividade fagocitária, a produção e função de anticorpos e a regulação de respostas inflamatórias.

Assim, déficits desses micronutrientes aumentam a suscetibilidade e a gravidade de infecções virais e bacterianas, enquanto uma nutrição ótima — que inclui suficiente aporte de oligominerais — melhora a resistência e o tempo de recuperação.

Dessa forma, a adequação mineral é uma excelente estratégia preventiva (inclusive de saúde pública), com impacto direto na severidade e desfecho de doenças infecciosas.

Oligominerais e longevidade

A prevenção é, portanto, um fio condutor no estudo dos oligominerais, indo desde a manutenção do equilíbrio dinâmico entre a produção de espécies reativas de oxigênio e nitrogênio e os sistemas antioxidantes nas células, até a proteção genômica.

Assim, esses elementos funcionam como nutrientes-chave para a longevidade.

Muitos oligominerais participam de sistemas enzimáticos antioxidantes ou modulam vias que controlam a produção de espécies reativas.

A perda desse equilíbrio favorece dano a lipídios, proteínas e DNA, o que por sua vez acelera processos degenerativos, inflamatórios e potencialmente carcinogênicos.

Portanto, além de prevenir doenças específicas, a manutenção de níveis adequados de oligominerais é um componente essencial de estratégias destinadas a reduzir o acúmulo de dano oxidativo ao longo do tempo e favorecer maior saúde ao envelhecer.

Micronutrientes na prevenção e manejo de doenças crônicas

Observa-se também uma relação complexa entre oligominerais e doenças crônicas.

Por exemplo: em nefropatias diabéticas foram descritas associações entre perfis urinários de elementos-traço (como aumento de cobre e manganês e diminuição de ferro e selênio) e a progressão de doença renal, sugerindo que alterações na homeostase mineral estão tanto envolvidas na patogênese quanto podem servir como biomarcadores prognósticos sobre a evolução, duração e desfechos de doenças, lesões ou condições de saúde.

Verifica-se, portanto, que oligominerais não são meros coadjuvantes nutricionais, mas sim participantes ativos nas trajetórias patológicas de enfermidades crônicas, requerendo intervenções nutricionais individualizadas como parte da prevenção e do manejo clínico.

Ação dos oligominerais nas diferentes fases da vida

É preciso considerar também as necessidades relacionadas à importância dos oligominerais nas diferentes fases da vida, pois, durante a gestação e a lactação, há maior necessidade de micronutrientes como ferro, zinco, iodo, selênio e cobre, cujas carências podem aumentar o risco de mortalidade no parto e contribuir para o baixo peso ao nascer.

Já, na infância, a insuficiência de ferro e zinco compromete o desenvolvimento físico e cognitivo.

Na adolescência, minerais como ferro, cálcio e zinco são fundamentais para o crescimento adequado, sendo que a falta de ferro pode causar anemia e a carência de zinco pode ocasionar problemas hepáticos.

Na vida adulta, a alimentação deve priorizar a prevenção de doenças e a manutenção do bom funcionamento do organismo.

Por fim, compreende-se que a observância — no decorrer de toda a vida — sobre o que foi explanado neste artigo torna-se importante para uma velhice saudável.

Cuidados para uma suplementação adequada

Logo, torna-se crucial enfatizar uma contradição frequente no discurso popular: embora as necessidades de oligominerais sejam medidas em microgramas ou miligramas, a ausência desses elementos pode resultar em consequências graves e, por vezes, irreversíveis.

Assim, o uso da expressão “traço” não deve induzir à ideia de irrelevância clínica — ao contrário, sublinha a necessidade de atenção à ingestão adequada desses nutrientes.

Dessa forma, ao pensar em políticas de saúde e em prática clínica, o papel preventivo dos oligominerais ganha contornos pragmáticos: triagens em grupos de risco, orientações dietéticas que privilegiem alimentos-fonte biodisponíveis (peixes e frutos do mar para iodo e selênio, carnes magras e leguminosas para ferro e zinco, grãos integrais e nozes para magnésio e manganês) e, quando indicado, suplementação mensurada e saudável conforme diretrizes.

Além disso, é preciso reconhecer as interações entre elementos (exemplo: excesso de ferro influenciando no metabolismo de zinco, excesso de iodo afetando a tireoide) e as condições que alteram necessidades do corpo (doença inflamatória, diálise e estado pós-operatório, entre outras).

O zinco, por exemplo, diminui a absorção de cobre porque aumenta a síntese de melatonina (proteína ligada ao cobre).

E há ainda interações que envolvem outros tipos de minerais, como o cálcio (macromineral) que inibe o ferro, porque tem algumas ações semelhantes.

Por meio desses exemplos, é possível compreender que intervenções isoladas e sem monitoramento — como a suplementação por conta própria — podem ser ineficazes ou mesmo prejudiciais.

Conclusão

Em síntese, oligominerais orquestram a saúde, pois são condutores silenciosos dela: atuam em redes bioquímicas essenciais, modulam a imunidade, protegem contra estresse oxidativo, participam da função endócrina e influenciam o risco e a progressão de condições cutâneas, renais e neoplásicas.

Portanto, a promoção de uma alimentação variada e nutricionalmente rica, aliada a práticas clínicas e terapêuticas que identifiquem níveis nutricionais e corrijam deficiências, representa uma estratégia de saúde preventiva de alto impacto.

A atenção aos oligominerais é, em última instância, atenção à integridade das funções fundamentais do organismo e à promoção da longevidade com qualidade de vida.


Profa. Dra. Janine Soares Camilo – Ph.D. em Medicina Tradicional Indígena (Naturopatia e Homeopatia) pela Erich Fromm University, bacharel em Psicologia pela Fatra – Faculdade do Trabalho, master em Microsemiótica Irídea, bacharel em Cosmetologia e Estética pela Unitri – Universidade Integrada do Triângulo e pós-graduada em Acupuntura pelo IPGU – Instituto de Pós-Graduação de Uberlândia e em Homeopatia pela Faculdade Inspirar.

 

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