Os ritmos circadianos representam uma das engrenagens mais complexas e refinadas da biologia humana, funcionando como um sistema de temporização que organiza praticamente todas as funções fisiológicas ao longo de um ciclo aproximado de 24 horas (Li et al., 2025).
Esses ritmos, regulados por genes conhecidos como clock genes, não apenas determinam o ciclo de sono‑vigília, mas também modulam a liberação hormonal, influenciam o metabolismo energético, coordenam a atividade imunológica e regulam o comportamento de praticamente todas as células do corpo (Froy, 2011).
Nos últimos anos, a ciência tem revelado que esses ritmos desempenham um papel ainda mais profundo do que se imaginava: eles são fundamentais para a saúde da pele e exercem influência direta na prevenção de tumores cutâneos, especialmente de tumores basais, como o carcinoma basocelular (CBC), que é o câncer de pele mais comum no mundo (Kang e Sancar, 2009).
A pele, maior órgão do corpo humano, é um tecido metabolicamente ativo, sensível à luz, ao ambiente, ao estresse e ao tempo.
Ela não é apenas uma barreira física, mas um sistema dinâmico que responde a estímulos externos e internos (D’Orazio et al., 2013).
Assim como o cérebro, o fígado e o sistema imunológico, a pele possui seu próprio relógio biológico interno, composto por um conjunto de genes-relógio que oscilam ao longo do dia e coordenam funções essenciais, como proliferação celular, reparo do DNA, pigmentação, secreção sebácea, espessura da barreira cutânea e resposta inflamatória (Kang e Sancar, 2009).
Esse relógio periférico da pele comunica-se com o relógio central localizado no núcleo supraquiasmático (NSQ), no hipotálamo, mas também responde de forma independente a estímulos locais, como temperatura, hormônios, alimentação e, principalmente, exposição à luz (Froy, 2011).
Relação entre desregulação circadiana e danos ao DNA na pele
A importância dos ritmos circadianos para a saúde cutânea é tão profunda que sua desregulação está associada a uma série de doenças dermatológicas e sistêmicas.
A pele é o único órgão que recebe luz solar direta, e a radiação ultravioleta (UV) é um dos principais sincronizadores circadianos (Geyfman e Andersen, 2009).
Durante o dia, a pele ativa mecanismos de defesa para enfrentar agressões externas, como radiação UV, poluição e microrganismos (Li et al., 2025).
À noite, ela entra em um estado de reparo intensivo, aumentando a regeneração celular, a síntese de colágeno e a correção de danos no DNA (D’Orazio et al., 2013).
Esse ciclo de proteção diurna e reparo noturno é essencial para manter a integridade cutânea (D’Orazio et al., 2013).
Quando esse ritmo mantém-se estável, a pele funciona como uma máquina precisa.
Mas quando ele se rompe, seja por privação de sono, exposição inadequada à luz artificial, estresse crônico, trabalho noturno ou hábitos de vida irregulares, surgem falhas que comprometem sua capacidade de defesa e aumentam o risco de mutações, que são o primeiro passo para o desenvolvimento de tumores basais (Geyfman e Andersen, 2009).
A radiação UV, principal fator de risco para o carcinoma basocelular (CBC), causa mutações no DNA das células basais da epiderme, especialmente no gene PTCH1, que regula a via hedgehog, fundamental para o desenvolvimento desse tipo de tumor (D’Orazio et al., 2013).
O que poucos sabem é que a capacidade da pele de reparar danos causados pela radiação UV varia ao longo do dia.
Estudos mostram que durante o período diurno a pele aumenta a expressão de enzimas de reparo do DNA, como a xeroderma pigmentosum group A (XPA), enquanto à noite essa capacidade diminui significativamente (Li et al., 2025).
Isso significa que a sincronização entre exposição solar e ritmos circadianos é essencial para minimizar danos genéticos (Li et al., 2025).
Quando o relógio biológico está desregulado, a pele perde parte dessa proteção natural.
Pessoas que dormem pouco, trabalham em turnos noturnos ou têm hábitos irregulares apresentam maior vulnerabilidade a danos UV, maior estresse oxidativo e menor eficiência de reparo do DNA.
A consequência é um aumento do risco de mutações acumuladas, que podem evoluir para tumores basais ao longo dos anos (Li et al., 2025).
Além disso, a desregulação circadiana afeta o sistema imunológico cutâneo, reduzindo a vigilância imunológica contra células anormais e favorecendo microambientes inflamatórios que contribuem para a carcinogênese (Hernández-Rosas et al., 2020).
Ritmos circadianos na visão da medicina tradicional chinesa e ayurveda
A medicina ocidental tem investigado profundamente esses mecanismos, revelando que a interrupção dos ritmos circadianos altera vias moleculares essenciais, como a via hedgehog, a via p53 e os mecanismos de apoptose, todos envolvidos na prevenção de tumores cutâneos (Su et al., 2024).
Paralelamente, a medicina oriental, especialmente a medicina tradicional chinesa (MTC) e a ayurveda, há milênios descrevem a importância dos ciclos naturais, da alternância entre atividade e repouso e da harmonia entre o corpo e o ambiente.
Na MTC, por exemplo, considera-se que o corpo é regido por ciclos energéticos de 24 horas, nos quais cada órgão possui um período de maior atividade.
A pele, associada ao pulmão, é vista como um espelho do estado interno do organismo e profundamente influenciada pelo ritmo da energia vital (Qi) e pela alternância entre repouso (yin) e atividade (yang).
A ayurveda, por sua vez, enfatiza a importância do dinacharya (a rotina diária) como forma de manter o equilíbrio dos doshas e preservar a saúde (D’Orazio et al., 2013).
Embora utilizem linguagens distintas, ambas as abordagens convergem ao reconhecer que o organismo humano funciona em ritmos e que a ruptura desses ritmos abre espaço para doenças (Geyfman e Andersen, 2009).
Integrar essas duas perspectivas permite compreender de forma mais ampla como os ritmos circadianos influenciam a prevenção de tumores basais e como práticas de saúde podem fortalecer esse equilíbrio (Hernández-Rosas et al., 2020).
A ciência moderna confirma que práticas tradicionais como meditação, yoga, tai chi chuan e qi gong ajudam a regular o eixo hipotálamo‑hipófise‑adrenal (HHA), reduzir os níveis de cortisol, melhorar a qualidade do sono e restaurar ritmos circadianos saudáveis, efeitos que repercutem diretamente na saúde da pele e na prevenção de danos celulares (D’Orazio et al., 2013).
Melatonina: o “escudo noturno” da pele
A melatonina, produzida principalmente pela glândula pineal durante a noite, é um dos pilares mais importantes da regulação circadiana (Lee, 2021).
Embora seja amplamente conhecida por induzir o sono, sua atuação biológica vai muito além disso.
A melatonina funciona como um verdadeiro “organizador noturno” do organismo, coordenando processos metabólicos, imunológicos e celulares que dependem da alternância entre luz e escuridão.
Na pele, esse hormônio exerce um papel particularmente relevante: atua como antioxidante, anti-inflamatório, modulador de proliferação celular e agente de reparo do DNA.
Por isso, muitos pesquisadores a descrevem como um “escudo noturno” que protege a pele contra danos acumulados ao longo do dia (Lee, 2021).
A melatonina neutraliza radicais livres gerados pela radiação UV, poluição e estresse oxidativo, reduz a inflamação, estimula mecanismos de reparo do DNA e regula o ciclo celular, evitando a proliferação descontrolada.
Quando o sono é insuficiente, fragmentado ou irregular, a produção de melatonina diminui, e essa queda repercute diretamente na saúde cutânea (Kopustinskiene e Bernatoniene, 2021).
A pele passa a enfrentar a noite com menos capacidade de regeneração, menos proteção antioxidante e menor eficiência na correção de danos genéticos.
A longo prazo, esse cenário pode favorecer o surgimento de mutações que contribuem para o desenvolvimento de tumores basais (Kopustinskiene e Bernatoniene, 2021).
Diminuição da vigilância imunológica, aumento de estresse e efeitos da luz azul de equipamentos eletroeletrônicos
A relação entre ritmos circadianos e câncer fica ainda mais evidente quando se observam populações expostas à desregulação crônica do relógio biológico, como trabalhadores noturnos.
Estudos mostram que pessoas que trabalham à noite apresentam maior risco de diversos tipos de câncer, incluindo câncer de pele (Zhang et al., 2024).
Isso ocorre porque o trabalho noturno rompe a sincronização entre o relógio interno e o ambiente externo, reduzindo a produção de melatonina, alterando a função imunológica, aumentando o estresse oxidativo e prejudicando o reparo do DNA (Krutmann et al., 2017).
Além disso, muitos trabalhadores noturnos se expõem ao sol durante o dia, quando o corpo deveria estar em repouso.
Essa combinação (privação de sono, luz artificial noturna e exposição solar diurna), cria um ambiente biológico propício ao acúmulo de mutações (Zeng et al., 2024).
O sistema imunológico também segue um ritmo circadiano.
Durante a noite, há maior atividade de células responsáveis pela vigilância imunológica e pelo reparo tecidual (Zeng et al., 2024).
Durante o dia, a resposta inflamatória é mais intensa, protegendo o organismo contra agressões externas.
Quando o ritmo circadiano é interrompido, a vigilância imunológica diminui, células potencialmente tumorais podem escapar do controle, a inflamação crônica aumenta e o microambiente cutâneo torna-se mais favorável ao crescimento tumoral (Göppner e Leverkus, 2011).
Como o carcinoma basocelular depende de falhas na imunidade local para se desenvolver, a desregulação circadiana pode ser um fator importante na sua progressão (Göppner e Leverkus, 2011).
O estresse crônico é outro grande inimigo dos ritmos circadianos. Ele aumenta a produção de cortisol, hormônio essencial para respostas de alerta, mas prejudicial quando mantido em níveis elevados por longos períodos (Lyons et al., 2019).
O cortisol elevado interfere no sono, reduz a produção de melatonina, compromete a imunidade e afeta diretamente a função da pele (Lyons et al., 2019). Ele reduz a capacidade de reparo do DNA, aumenta a inflamação, enfraquece a barreira cutânea, acelera o envelhecimento e favorece mutações.
Além disso, o estresse altera a expressão de genes-relógio, desorganizando o ciclo circadiano e criando um ambiente biológico propício ao desenvolvimento de tumores basais (Lyons et al., 2019).
Outro fator moderno que interfere profundamente nos ritmos circadianos é a luz artificial, especialmente a luz azul emitida por telas de celulares, computadores e televisores (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A luz azul inibe a produção de melatonina, atrasa o início do sono e prolonga o estado de alerta.
Para a pele, isso significa menor reparo noturno, maior estresse oxidativo, aumento de inflamação, aceleração do envelhecimento e maior vulnerabilidade a mutações.
A exposição à luz azul à noite também ativa vias celulares relacionadas ao estresse, podendo contribuir para o desenvolvimento de tumores cutâneos (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A cronobiologia moderna associada às medicinas tradicionais
Enquanto a medicina ocidental investiga esses mecanismos com rigor molecular, a medicina oriental já reconhecia, há milhares de anos, a importância dos ciclos naturais.
Para a MTC, o corpo é regido por ritmos energéticos que se alternam ao longo do dia.
Cada órgão possui um horário de maior atividade e outro de repouso (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A pele, associada ao pulmão e ao intestino grosso, é vista como um órgão que respira, elimina toxinas e responde diretamente ao equilíbrio entre yin e yang.
Quando o ritmo natural do corpo é interrompido, seja por excesso de atividade, falta de descanso, emoções intensas ou exposição inadequada à luz, ocorre um desequilíbrio energético que enfraquece a defesa externa (Wei Qi), tornando a pele mais vulnerável a doenças, incluindo tumores (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A ayurveda, outro sistema médico tradicional, descreve o conceito de dinacharya, a rotina diária alinhada aos ciclos solares.
Segundo essa tradição, acordar com o nascer do sol, dormir cedo, evitar estímulos intensos à noite e manter horários regulares de alimentação são práticas essenciais para preservar a vitalidade e prevenir doenças crônicas (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A cronobiologia moderna confirma muitos desses princípios, mostrando que pequenas mudanças no estilo de vida podem sincronizar o relógio biológico e fortalecer a saúde da pele (Kleszczynski e Fischer, 2012).
A medicina integrativa combina práticas da medicina ocidental com abordagens complementares, como meditação, acupuntura e técnicas de respiração.
Muitas dessas práticas têm impacto direto nos ritmos circadianos (Zeng et al., 2024).
A meditação reduz o cortisol, melhora a qualidade do sono, regula o sistema nervoso autônomo e diminui a inflamação.
A acupuntura modula hormônios, melhora a função imunológica, reduz o estresse e ajuda a regular o ciclo de sono‑vigília.
Essas práticas podem ser aliadas importantes na promoção de equilíbrio circadiano, especialmente em pessoas com rotina estressante ou sono irregular (Zeng et al., 2024).
A alimentação também influencia os ritmos circadianos. Comer tarde da noite desregula o metabolismo e interfere na produção de melatonina.
Alguns nutrientes são especialmente importantes para a saúde da pele, como antioxidantes, ômega‑3, polifenóis, zinco e selênio.
Esses nutrientes ajudam a neutralizar radicais livres, reduzir a inflamação e proteger o DNA, mecanismos essenciais para manter a integridade cutânea (Zhang et al., 2024).
Os ritmos circadianos são, portanto, uma peça fundamental na biologia da pele e desempenham um papel crucial na prevenção de tumores basais.
Quando o relógio biológico funciona de maneira harmoniosa, a pele torna-se mais resistente à radiação UV, mais eficiente no reparo do DNA e mais capaz de manter sua integridade imunológica.
Por outro lado, quando esse ritmo é interrompido, seja por estresse, privação de sono, luz artificial excessiva, trabalho noturno ou hábitos irregulares, a pele perde parte de sua capacidade natural de defesa, tornando‑se mais vulnerável ao desenvolvimento de carcinoma basocelular (CBC).
Maria Graziela de Fátima Alvarez Kenupp – Biomédica e estudante de Medicina – UNE – Bolívia.
Referências bibiográficas
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