O avanço científico e tecnológico tem promovido a melhoria das condições de vida e elevou a expectativa de vida da população.
Consequentemente, verifica-se também uma maior exposição cumulativa a fatores de risco à saúde, associada ao dano celular progressivo e à senescência do sistema imunológico, favorecendo a incidência de morbidades crônicas.
Tal panorama estimula investigações voltadas ao bem-estar e assistência em saúde, com o propósito de conferir ‘mais vida aos anos’ por meio de uma práxis clínica multidimensional.
Nesse contexto, preservar a funcionalidade e o bem-estar biopsicossocial exige atenção a manifestações clínicas como a dor — cuja transição de aguda para crônica pode desencadear incapacidades e comprometer a integridade do paciente.
A dor aflige mais indivíduos do que qualquer outro quadro patológico e tem sido a razão mais comum para que uma pessoa procure ajuda profissional, pois para quem a sente a solução tem caráter urgente.
Assim, o cuidar de uma pessoa que sente dor precisa incluir a sensibilidade de verificar não só os aspectos somáticos mas também as subjetividades que envolvem o processo de adoecimento, a fim de direcionar corretamente o tratamento integral do ser humano, levando-o para os caminhos da reabilitação.
Dessa forma, terapêuticas e exames que vão na direção de reconhecer a influência da mente e das emoções no processo de saúde-doença ganharam relevância clínica no manejo das doenças crônicas e incapacitantes, especialmente em quadros de dor severa e perda de funcionalidade, tornando-se cada vez mais importantes para devolver qualidade de vida a pessoas adoecidas e que se sentem impedidas de retornar às suas atividades cotidianas.
Dentre essas terapias, um dos destaques é a acupuntura, não só pelos resultados que obtém, mas também pela multiplicidade de técnicas minimamente invasivas que traz para a recuperação orgânica ou para a redução da dor, pois ao promover o reequilíbrio energético e a reabilitação do organismo, essa terapêutica reduz o sofrimento álgico e melhora a qualidade de vida dos pacientes.
A dor como consequência de disfunção nos fluxos energético e/ou sanguíneo
A acupuntura é uma das principais ferramentas terapêuticas da medicina tradicional chinesa (MTC), na qual a dor é entendida como a consequência de uma disfunção nos processos biológicos fundamentais — o fluxo energético (Qi) e o fluxo sanguíneo —, ou seja, a dor é um dos sinais de alerta de que há algo de errado dentro desses processos, que no nível ocidental têm sido compreendidos como o funcionamento do sistema nervoso e do sistema circulatório.
Portanto, se a energia e o sangue fluem livremente não há patologias ou dores. Mas se há alguma disfunção ou interrupção desses movimentos — devido a alguma deficiência das funções orgânicas que ajudam na manutenção desses fluxos ou à presença de fatores patogênicos (climáticos, emocionais e de estilo de vida) — ocorrem as doenças.
A depender das combinações desses elementos citados, a sensação de dor pode acontecer de formas diferentes. E ainda deve ser considerado que os fluxos podem estar prejudicados por motivo de falta de movimento (estagnação do Qi) ou porque a quantidade está insuficiente (estase do sangue), sendo inclusive possível que essas duas situações ocorram simultaneamente.
Assim, conforme essas variações, a dor pode apresentar-se em forma de distensão, traumatismo, tumefação, aguda, em pontada e cortante, entre outras, variando também em intensidade, duração e localização.
Se o fluxo de energia e de sangue estão inibidos simultaneamente, a dor costuma ser duradoura ou crônica.
Ação da acupuntura nos sistemas nervoso, endócrino e imunológico
Importa lembrar que na MTC há várias formas ou técnicas para o estímulo dos pontos de acupuntura (localizados nos meridianos de energia), podendo ser utilizados para tal agulhas (manipulação elétrica ou manual), acupressão, sementes, imãs, moxabustão e ventosas, entre outros.
O trajeto percorrido pelo estímulo provocado aciona terminações livres locais e receptores neurais especializados que enviam informações ao sistema nervoso central (SNC) por meio de impulsos nervosos, através de vias neurais aferentes.
Cada nível desse sistema responde ao estímulo levando a efeitos subsequentes pela interação entre os sistemas nervoso, endócrino e imunológico.
Isso provoca a liberação de substâncias como endorfina, serotonina, encefalina, noradrenalina, dopamina e dinorfina, entre outras, que em conjunto e de variadas formas vão auxiliar no alívio da dor, controlando inflamações, promovendo relaxamento e regulando o humor.
Ou seja, o estímulo nos pontos certos (cada um tem sua função) provoca o equilíbrio na circulação de sangue e energia.
Essa primeira reação é o início do processo de recuperação da saúde, pois desencadeia efeitos subsequentes por meio de vias neuronais e humorais. O tecido subcutâneo contém diversas células, fibras e vasos sanguíneos ricos em nervos simpáticos e vasos linfáticos. Com essa irrigação, substâncias que deixaram de exercer seus papéis devido às disfunções nos fluxos passam a circular, trazendo o alívio de dores, a harmonia entre yin/yang e o reequilíbrio orgânico e/ou mental.
Com relação à dor crônica, verifica-se por exemplo que dentro desse processo de estímulo dos pontos de acupuntura são liberados opioides endógenos, que são as endorfinas, encefalinas e dinorfinas, ou seja, substâncias responsáveis por promover analgesia, a qual também é mediada por hormônios como serotonina, dopamina e noradrenalina.
A serotonina, por exemplo, é um potente modulador de efeitos nociceptivos (sinais de alerta para a dor), de forma que a acupuntura promove a atenuação do quadro álgico também pelo aumento dessa substância e seus metabólitos em locais como a medula espinal de onde é liberada.
Dessa forma, haja vista o potente efeito terapêutico das técnicas de acupuntura — como a eletroacupuntura por exemplo —, estima-se que a analgesia alcançada pode ser semelhante à provocada pela ação da morfina.
É claro que todo o resultado obtido diante de patologias depende fundamentalmente de três componentes: anamnese profunda que resulte no prévio diagnóstico energético, seleção adequada dos pontos e escolha da melhor técnica para manipulação de meridianos e pontos de acupuntura.
Estudos sobre a relação entre dores físicas e fatores psicológicos: uma via de mão dupla
Apesar de ser uma técnica milenar e de há muito tempo já ter se consolidado também no Ocidente, inclusive no campo da dor crônica, muitas pesquisas recentes continuam revelando resultados importantes que ressaltam cada vez mais o valor da técnica de acupuntura.
A relação entre fatores psicológicos e dores físicas é um elemento central abordado nesses estudos, sempre expondo que problemas emocionais e dores crônicas mantêm uma via bidirecional: a dor prolongada gera emoções negativas como estresse, ansiedade e depressão, enquanto o sofrimento mental reduz o limiar de dor do paciente, agravando a percepção dolorosa.
A sobreposição de circuitos neurais e neuroquímicos entre o processamento da dor e do humor explica por que patologias como a depressão e a insônia são comorbidades extremamente frequentes na dor crônica.
Por suas características, verifica-se que a acupuntura atua diretamente na resolução de patologias crônicas tanto de origem física quanto daquelas moduladas por sofrimento emocional.
Pois, como explicado, ela estimula o sistema neuroendócrino e modula neurotransmissores, permitindo tratar de forma simultânea tanto disfunções como as musculoesqueléticas ou neuropáticas quanto o componente afetivo-emocional que amplifica o quadro.
Para além dos relatos de quem se beneficia dos tratamentos com acupuntura, os resultados que ela proporciona diante das dores crônicas são verificados em meio a trabalhos com ensaios clínicos e meta-análises realizados com diferentes metodologias: escalas validadas de dor, como a escala visual analógica (EVA) e escalas de sintomas mentais e funcionais, a exemplo da escala de depressão de Hamilton (HAMD) e da escala de gravidade da insônia (ISI), para verificar a modulação e o alívio de dor crônica em voluntários.
Paralelamente, estudos neurofuncionais comprovam esses efeitos por meio de exames avançados de neuroimagem, como a ressonância magnética funcional (fMRI), que demonstra a capacidade da acupuntura de reorganizar e alterar as propriedades de conectividade funcional das redes cerebrais associadas ao processamento da dor neuropática.
Ao aliviar a intensidade da dor e regular os aspectos neurobiológicos, a acupuntura atua prevenindo incapacidades funcionais e preservando as funções fisiológicas. Ao combater sintomas associados, como a rigidez muscular (no caso de fibromialgia), o sono não reparador e o humor deprimido, o tratamento restabelece a capacidade de realizar atividades da vida diária, reduz a fadiga e devolve ao indivíduo a sua autonomia e qualidade de vida.
Independentemente da obtenção de remissão total, estudos recentes permanecem atestando com clareza a eficácia e segurança da acupuntura para tratar dores crônicas e a depressão associada, inclusive ressaltando que ela apresenta menor incidência de efeitos adversos em comparação com o uso de medicamentos convencionais.
Diante disso, verifica-se que estrategicamente essa terapêutica proporciona ganhos funcionais, melhora da qualidade de vida e redução de custos com medicações em pacientes com dor crônica complexa, além de contribuir de forma fundamental para o bem-estar humano e a saúde pública, especialmente em tempos em que a população vem ganhando maior expectativa de vida.
Profa. Dra. Janine Soares Camilo – Ph.D. em Medicina Tradicional Indígena (Naturopatia e Homeopatia) pela Erich Fromm University, bacharel em Psicologia pela Fatra – Faculdade do Trabalho, master em Microsemiótica Irídea, bacharel em Cosmetologia e Estética pela Unitri – Universidade Integrada do Triângulo e pós-graduada em Acupuntura pelo IPGU – Instituto de Pós-Graduação de Uberlândia e em Homeopatia pela Faculdade Inspirar.
Referências bibliográficas
Liu, Fushui et al. Acupuntura para insônia relacionada à dor crônica: uma revisão sistemática e meta-análise. Evid Based Complement Alternat Med, v. 24, 2020. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6612974/. Acesso em 17 de ago. 2026.
Valera-Calero, Juan Antônio et al. Eficácia do agulhamento seco e da acupuntura em pacientes com fibromialgia: uma revisão sistemática e meta-análise. Int J Environ Res Public Health, v. 19, nº 16, p. 9904, 2022. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9408486/. Acesso em 18 de ago. 2026.
Vasques, Alex Rodrigues. Bases energéticas e neurofisiológicas da Acupuntura no tratamento da dor em doenças ortopédicas. 2018. 32 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Fisioterapia) – Centro Universitário Anhanguera, São Paulo, 2018. Disponível em https://repositorio.pgsscogna.com.br/bitstream/123456789/26162/1/Atividade%20-%20Defesa.pdf. Acesso em 17 de ago. 2026.
Wey, Xiao-Ya. Modulação da dor neuropática crônica pela acupuntura e sua associação com as propriedades funcionais do cérebro. The Journal of Pan, v. 25, 2024. Disponível em https://www.jpain.org/article/S1526-5900(24)00595-9/fulltext. Acesso em 17 de ago. 2026.
You, Jianyu et al. Acupuntura para depressão relacionada à dor crônica: uma revisão sistemática e meta-análise. Pain Res Manag, v. 22, nº 2021, p. 6617075, 2021. Disponível em https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33680223/. Acesso em 18 de ago. 2026.
Zhu, Heming. Os pontos de acupuntura iniciam o processo de cura. Med Acupunct, v. 26, nº 5, p. 264-270, 2014. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC4202904/. Acesso em 17 de ago. 2026.