O câncer de endométrio é uma das neoplasias ginecológicas mais comuns, especialmente em mulheres pós-menopáusicas.
Ele afeta o revestimento interno do útero e, embora os tratamentos convencionais (como cirurgia, radioterapia e quimioterapia) sejam eficazes, frequentemente provocam efeitos colaterais físicos e emocionais que impactam a qualidade de vida das pacientes.
Nesse contexto, a aromaterapia tem ganhado destaque como uma prática integrativa capaz de oferecer suporte complementar durante o tratamento oncológico (Akyuz et al., 2007).
A aromaterapia é uma prática terapêutica em que se utilizam óleos essenciais extraídos de plantas aromáticas com o objetivo de promover saúde, bem-estar físico e equilíbrio emocional.
Com raízes históricas em diversas culturas (incluindo as do Egito, Índia, China e Grécia antiga), essa abordagem faz parte das chamadas terapias integrativas e complementares, sendo aplicada em contextos clínicos, domiciliares e até hospitalares (Swisher et al., 2002).
Os óleos essenciais são substâncias voláteis e altamente concentradas, obtidas por meio de processos como destilação a vapor ou prensagem a frio de folhas, flores, cascas, raízes ou frutos.
Cada óleo possui uma composição química única, o que lhe confere propriedades específicas, tais como ação calmante, estimulante, analgésica, anti-inflamatória, expectorante ou antisséptica.
A Tabela 1 mostra exemplos de como algumas substâncias presentes nos óleos essenciais podem agir no corpo humano.

O mecanismo de ação da aromaterapia envolve estímulos sensoriais provocados pelo aroma dos óleos essenciais. Ao serem inaladas, as moléculas aromáticas atingem os receptores olfatórios e, por meio do nervo olfatório, enviam sinais ao sistema límbico, que é a área do cérebro envolvida com emoções, memória, comportamento e regulação hormonal.
Esse processo pode influenciar positivamente estados emocionais, como ansiedade e estresse, além de provocar reações fisiológicas, como diminuição da frequência cardíaca ou melhoria do padrão respiratório.
Os óleos essenciais também podem ser absorvidos pela pele, entrando na corrente sanguínea e atuando sistemicamente (Akyuz et al., 2007).
Formas de aplicação da aromaterapia
A aromaterapia pode ser realizada de diferentes maneiras, dependendo do objetivo que se quer alcançar e do perfil do paciente.
A inalação direta é uma das formas mais simples, eficazes e acessíveis de se aplicar a aromaterapia, especialmente voltada para o alívio imediato de sintomas físicos e emocionais.
Ela consiste na exposição direta às moléculas aromáticas dos óleos essenciais, ativando receptores olfativos que desencadeiam respostas neuroquímicas no sistema nervoso central, com efeitos que podem incluir relaxamento, foco mental, alívio de náuseas, redução do estresse e até melhora da qualidade respiratória.
Quando os óleos são inalados, as moléculas voláteis entram pelas vias nasais e estimulam os receptores sensoriais do epitélio olfativo. Esses receptores enviam sinais ao bulbo olfatório, que por sua vez está diretamente conectado ao sistema límbico — a área do cérebro que regula emoções, memória, comportamento e funções autonômicas.
Essa conexão é o que torna a aromaterapia uma ferramenta poderosa para influenciar o humor e o estado emocional.
Na prática, a inalação direta pode ser feita de várias formas: colocando-se uma gota de óleo essencial em um lenço ou algodão e aproximando-o do nariz para respiração consciente; com a utilização de difusores pessoais, como colares aromáticos ou inaladores portáteis ou mesmo através da técnica das mãos em concha, em que o óleo diluído é aplicado nas palmas e inalado profundamente, com olhos fechados e postura relaxada (Swisher et al., 2002).
Para fins terapêuticos, a escolha do óleo essencial deve ser feita com base no efeito desejado: lavanda e camomila para relaxamento e ansiedade, gengibre e hortelã-pimenta para náuseas e fadiga, olíbano para apoio emocional profundo e óleos cítricos para estímulo da alegria e disposição.
No contexto oncológico, a aromaterapia oferece suporte durante a quimioterapia, controle dos sintomas e acolhimento emocional, desde que sejam evitados óleos com potencial hormonal em tumores sensíveis a estrogênio (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
A massagem aromática é uma técnica terapêutica que combina os efeitos fisiológicos da massagem tradicional com os benefícios emocionais e farmacológicos dos óleos essenciais.
Essa prática é amplamente utilizada na aromaterapia como forma de aliviar tensões musculares, melhorar a circulação e reduzir sintomas de estresse e ansiedade, além de promover bem-estar físico e mental.
Durante a sessão, os óleos essenciais escolhidos são diluídos em um óleo carreador, como óleo de amêndoas, de semente de uva ou de coco, antes de serem aplicados sobre a pele. A diluição é essencial para garantir a segurança, prevenir irritações cutâneas e permitir que as propriedades dos óleos atuem de forma equilibrada.
A seleção dos óleos varia conforme o objetivo terapêutico desejado: lavanda para relaxamento, hortelã-pimenta para revitalização, gengibre para dores musculares e camomila para tranquilidade, entre outros (Akyuz et al., 2007).
Ao aplicar o óleo diluído, o terapeuta utiliza movimentos suaves, contínuos e ritmados que ajudam a estimular o sistema linfático e a musculatura, facilitando a absorção dos compostos ativos através da pele. Esses compostos entram na corrente sanguínea e interagem com diversos sistemas do corpo, enquanto os aromas são simultaneamente percebidos pelas vias olfativas, ativando o sistema límbico — área cerebral relacionada às emoções e à memória (Swisher et al., 2002).
Além dos efeitos físicos (relaxamento muscular, melhora na oxigenação dos tecidos e alívio de dores), a massagem aromática promove uma experiência sensorial completa, criando um ambiente de acolhimento, escuta e presença.
É especialmente indicada para quadros de ansiedade, insônia, depressão leve, tensão emocional, fadiga e até como suporte a tratamentos de doenças crônicas, como o câncer, quando realizada com cuidados adequados (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
Os banhos aromáticos constituem outra prática terapêutica profundamente envolvente na aromaterapia, que combina o poder da água com os benefícios dos óleos essenciais para promover relaxamento, equilíbrio emocional e alívio de sintomas físicos.
Diferentemente de um banho comum, essa técnica transforma o momento de higiene pessoal em um ritual de autocuidado, criando uma experiência sensorial capaz de acalmar, revitalizar ou acolher, conforme os óleos utilizados e a intenção proposta (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
O funcionamento do banho aromático começa com a escolha de óleos essenciais adequados à necessidade do momento. Por exemplo: o óleo de lavanda pode ser usado para acalmar o sistema nervoso, enquanto o gengibre promove energia e circulação e o eucalipto ajuda na liberação das vias respiratórias.
Os óleos essencias precisam ser diluídos em um veículo solúvel, como leite integral, mel, óleo vegetal ou sais terapêuticos, já que eles não se misturam diretamente na água. Essa etapa é crucial para garantir segurança na aplicação, evitando irritações cutâneas ou superconcentração (Swisher et al., 2002).
Durante o banho, o calor da água facilita a liberação das moléculas aromáticas, que são inaladas pelo usuário, estimulando o sistema olfativo e ativando regiões cerebrais ligadas às emoções, como o sistema límbico. Ao mesmo tempo, essas moléculas podem ser absorvidas pela pele, contribuindo para efeitos sistêmicos leves, como melhora da circulação ou relaxamento muscular (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
O ambiente também participa do processo terapêutico: luz suave, música tranquila e ausência de estímulos externos ajudam a potencializar os efeitos do banho aromático. Esse momento de pausa e introspecção favorece a conexão do indivíduo consigo mesmo, resgatando sensações de segurança, aconchego e presença (Akyuz et al., 2007).
Em contextos clínicos, como em tratamentos oncológicos ou quadros de ansiedade e insônia, os banhos aromáticos são utilizados como recurso complementar para aliviar desconfortos físicos e promover bem-estar emocional.
Quando aplicada com consciência e respeito às particularidades de cada pessoa, essa prática pode se tornar um ritual restaurador e profundamente transformador (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
Já as compressas aromáticas consistem na aplicação de panos embebidos em água (quente ou fria), acrescida de óleos essenciais previamente diluídos. A temperatura é escolhida conforme a finalidade: compressas quentes são indicadas para aliviar dores musculares, cólicas, tensões ou rigidez articular. As compressas frias são utilizadas para reduzir inflamações, edemas, febre ou cefaleia.
Para preparar as compressas, mistura-se uma pequena quantidade de óleo essencial com um dispersante (como leite integral ou álcool de cereais) na água, mergulha-se o tecido e aplica-se diretamente sobre a região desejada, por 15 a 20 minutos.
Durante o processo, o aroma liberado também atua pelo olfato, contribuindo para o relaxamento ou estimulação emocional (Swisher et al., 2002).
A vaporização aromática, por sua vez, envolve a inalação de vapores com óleos essenciais dispersos em água quente. Essa técnica é especialmente eficaz para limpar as vias respiratórias e para aliviar sintomas de congestão nasal, sinusite, ansiedade e tensão nervosa.
Ao se aquecer a água e adicionar algumas gotas de óleo essencial, como eucalipto, lavanda ou hortelã-pimenta, o vapor liberado carrega moléculas voláteis que são inaladas profundamente.
A prática pode ser feita com o rosto coberto por uma toalha sobre um recipiente de vapor, criando uma cúpula para concentrar o aroma.
O calor intensifica a absorção olfativa e favorece a ação dos óleos sobre os pulmões e o sistema nervoso, promovendo efeitos calmantes, descongestionantes e energizantes, dependendo da essência utilizada.
Recomendações e prevenções
Por serem altamente concentrados, os óleos essenciais precisam ser usados com cautela e orientação profissional.
Devem sempre ser diluídos antes da aplicação tópica para evitar irritações ou reações alérgicas.
Certos óleos, como o de canela ou orégano, têm potencial irritante e portanto seu uso deve ser evitado em peles sensíveis.
Em gestantes, crianças e pacientes com doenças crônicas (como pacientes oncológicos), a utilização de óleos essenciais precisa ser feita de forma individualizada.
A origem e a pureza dos óleos são aspectos fundamentais. É recomendável utilizar produtos 100% naturais e certificados (Akyuz et al., 2007).
Aromaterapia em cuidados paliativos
A aromaterapia tem sido incorporada a protocolos de cuidados paliativos, saúde mental, obstetrícia, oncologia, fisioterapia e enfermagem.
Muitos estudos relatam que a sua utilização promove melhora na qualidade do sono, redução da dor, diminuição de sintomas depressivos e controle de náuseas pós-quimioterapia.
Por sua natureza integrativa, a aromaterapia não substitui tratamentos convencionais, mas pode ser uma ferramenta eficaz para potencializar o cuidado centrado na pessoa.
Aplicação em câncer de endométrio
Para mulheres com câncer de endométrio, os óleos essenciais comumente utilizados são os relacionados a seguir.
A lavanda (Lavandula angustifolia) possui propriedades ansiolítica, analgésica e de relaxamento muscular e apresenta como benefícios o alívio da ansiedade, a melhora do sono e a redução de dores de cabeça e da tensão emocional.
O olíbano (Boswellia carteri) possui propriedades anti-inflamatória, imunomoduladora e calmante e tem como benefícios a promoção da sensação de proteção e paz e o auxílio no enfrentamento emocional da doença.
A rosa (Rosa damascena) tem propriedades antidepressiva, antioxidante e anti-inflamatória e trabalha mágoas, além de promover acolhimento emocional e de ter ação antitumoral em estudos in vitro.
O gengibre (Zingiber officinale) apresenta propriedades antiemética, digestiva, e anti-inflamatória e combate náuseas induzidas por quimioterapia, além de reduzir a fadiga e melhorar o apetite.
A camomila (Chamaemelum nobile) tem propriedades sedativa, anti-inflamatória e antiespasmódica e induz o alívio de cólicas e a redução da insônia e irritabilidade.
A melaleuca (Tea Tree) apresenta propriedades antimicrobiana e imunomoduladora, além de reforçar a imunidade, sendo especialmente útil em ambientes hospitalares.
Os cítricos (laranja, mandarina, tangerina) possuem propriedades estimulante e antidepressiva leve e criam um ambiente mais agradável e acolhedor, ajudando no humor e na disposição (Akyuz et al., 2007).
Óleos como gerânio (Pelargonium graveolens) e sálvia esclareia (Salvia sclarea) contêm compostos que apresentam atividade estrogênica, ou seja, atuam de maneira semelhante ao estrógeno, hormônio feminino que, em certas neoplasias, pode estimular o crescimento tumoral.
Essa característica torna esses óleos potencialmente contraindicados em pacientes com tumores que expressam receptores hormonais, como o de endométrio, mama ou ovário.
A atividade estrogênica desses óleos ocorre devido à presença de fitoestrógenos ou moléculas que interagem com os receptores de estrogênio, modulando sinais hormonais que influenciam o funcionamento celular (Supoken, Chaisrisawatsuk e Chumworathayi, 2009).
A aplicação da aromaterapia deve sempre ser feita com orientação de um aromaterapeuta, respeitando-se os protocolos de diluições seguras e formas de uso (inalação, difusores, massagens com óleos carreadores, etc.).
A aromaterapia pode ser incorporada ao cuidado oncológico por meio de inalação direta ou difusores ambientais, promovendo relaxamento e alívio emocional; através de massagens terapêuticas com óleos diluídos, que ajudam a reduzir tensões físicas e emocionais e com o uso de banhos aromáticos e compressas, que oferecem conforto e aliviam dores localizadas (Swisher et al., 2002).
Quando incorporada ao cuidado oncológico, a aromaterapia atua como uma abordagem complementar que busca promover conforto, aliviar sintomas físicos e emocionais e melhorar a qualidade de vida dos pacientes durante o tratamento do câncer.
Embora não substitua os tratamentos médicos convencionais, essa prática representa um recurso integrativo valioso, que respeita a complexidade do paciente oncológico de forma mais humanizada (Swisher et al., 2002).
Diversos estudos apontam que a aromaterapia pode ajudar a reduzir sintomas de ansiedade, medo e depressão, comuns em diagnósticos oncológicos; aliviar efeitos colaterais da quimioterapia, como náuseas, insônia, cefaleia e fadiga; melhorar o sono e a qualidade do descanso, fator essencial para o processo de recuperação e oferecer suporte emocional e espiritual, fortalecendo o vínculo entre paciente e equipe de cuidado (Akyuz et al., 2007).
A aromaterapia não substitui os tratamentos médicos convencionais, mas pode ser uma aliada poderosa no enfrentamento dos sintomas físicos e emocionais do câncer de endométrio. Ao promover conforto, equilíbrio e bem-estar, essa prática integrativa contribui para uma jornada terapêutica mais humanizada e acolhedora.
Mari Uyeda – Professora Assistente da Saint Francis University, Pensilvânia/EUA e estudante de Medicina – UNE.
Referências bibliográficas
Supoken, A., Chaisrisawatsuk, T., e Chumworathayi, B. (2009). Proportion of gynecologic cancer patients using complementary and alternative medicine. Asian Pacific Journal of Cancer Prevention: APJCP, 10(5), 779–782.
Swisher, E. M., Cohn, D. E., Goff, B. A., Parham, J., Herzog, T. J., Rader, J. S., e Mutch, D. G. (2002). Use of complementary and alternative medicine among women with gynecologic cancers. Gynecologic Oncology, 84(3), 363–367. Disponível em https://doi.org/10.1006/gyno.2001.6515.
Akyuz, A., Dede, M., Cetinturk, A., Yavan, T., Yenen, M. C., Sarici, S. U., e Dilek, S. (2007). Self-application of complementary and alternative medicine by patients with gynecologic cancer. Gynecologic and Obstetric Investigation, 64(2), 75–81. Disponível em https://doi.org/10.1159/000099634.