Faz algum tempo que as terapias integrativas e complementares vêm ocupando seus espaços, pela capacidade de auxiliarem na prevenção, promoção e recuperação da saúde.
Desde 1986, a incorporação das PICs no Sistema Único de Saúde (SUS) — que ainda estava para ser institucionalizado (1988) e oficializado (1990) — passou a ser discutida no Brasil, por meio da 8ª Conferência Nacional de Saúde.
Mas foi só em 2006 que ocorreu a instituição da Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC), incorporando essas práticas na atenção à saúde, entre as quais encontram-se terapêuticas vindas de medicinas tradicionais, como a acupuntura e de medicinas complementares, como a terapia de florais.
Nas últimas décadas, houve mais valorização das PICs, aumento de sua demanda, maior legitimação social e regulamentação, tudo isso independentemente do já firme estabelecimento do modelo biomédico.
Dessa forma, as terapias integrativas não param de alcançar patamares mais altos em relevância entre seus usuários, sendo que, desde os citados marcos, houve evoluções importantes.
Sendo assim, por meio do cenário atual, enxergam-se a abertura e a importância de se investigar ainda mais sobre as potencialidades dessas terapêuticas, agora com mais apoio e respaldo — já que até certo ponto a sociedade esteve mais preocupada com a exploração de terapias voltadas para o modelo convencional puramente biomédico.
Os terapeutas integrativos podem agora pensar com mais sustentáculo sobre os próximos capítulos dessa área promissora para a saúde em geral e obter mais concordância e cooperação, inclusive financeira, para realizar pesquisas que revelem o quão ainda é possível fazer pelo ser humano a partir dessas práticas em saúde.
Acupuntura e terapia de florais: benefícios da sinergia
As práticas integrativas e complementares (PICs) apresentam mecanismos de ação distintos, atuando de forma direta em diferentes níveis do indivíduo e de forma indireta em todos os níveis — físico, emocional e energético. Isso porque, se uma terapêutica auxilia nas emoções, por exemplo, haverá também ganhos físicos e energéticos e vice-versa, levando à homeostase.
Dentre essas práticas, está a acupuntura, que de forma simplificada atua através de mecanismos que envolvem o corpo, as emoções e o sistema energético, estimulando pontos específicos na pele (pontos de acupuntura com propriedades inerentes e determinadas), que estão distribuídos ao longo dos meridianos ou canais energéticos.
O estímulo desses pontos ajuda a regular o fluxo de energia vital, promovendo o equilíbrio energético no corpo, sendo que uma regulação energética como essa é capaz de auxiliar de várias formas na saúde em geral.
Entre outros aspectos, a acupuntura atua no sistema nervoso central, ajudando a equilibrar respostas emocionais e físicas.
Em sua aplicação, são liberados neurotransmissores como endorfinas, cortisol e serotonina, que desempenham papel crucial na regulação de várias funções corporais. E toda essa ação justifica seu uso atual com sucesso para promover a saúde e prevenir ou sanar patologias.
Outro exemplo é a terapia com florais, que atua por meio de mecanismos que envolvem a harmonização do sistema energético, influenciando as emoções e o bem-estar geral.
A terapia de florais vem ganhando espaço como tratamento complementar nos estados mentais, agindo para corrigir as causas de desequilíbrios, sendo que os florais podem ser indicados para desordens emocionais relacionadas a diferentes tipos de situações pelas quais o indivíduo passa.
Os florais de Bach, por exemplo, funcionam estimulando a energia vital e ajudando a equilibrar emoções como medo, ansiedade, tristeza ou insegurança. Sua ação promove um resgate do estado emocional e energético, permitindo que o corpo recupere-se de desequilíbrios emocionais e físicos. É portanto uma atuação que ajuda a liberar bloqueios e restaurar fluxos de energia, o que irá se refletir na melhora da saúde em ambos os níveis, sendo uma abordagem natural que alinha corpo, mente e espírito.
Por meio dessa explicação simplificada, é possível ter uma parca noção de como essas duas terapêuticas podem auxiliar na saúde, importando — entre outros tipos de estudos — trazer a necessidade de se desenvolver pesquisas quanto aos benefícios e resultados da associação entre as PICs, a fim de auxiliar ainda mais a população otimizando processos de cura.
Estudos em que se utilizam PICs para auxiliar nos tratamentos convencionais relatam os benefícios disso, afirmando que essa associação promove uma resposta mais abrangente ao tratamento.
Tem-se também estudos mostrando as vantagens da associação das PICs junto a cuidados paliativos.
Mas ainda há poucos estudos sobre a eficácia de associações entre PICs, demonstrando os benefícios e benesses da combinação entre elas.
Por exemplo: uma associação de acupuntura com florais de Bach pode trazer resultados surpreendentes. A acupuntura dispõe de várias técnicas a serem aplicadas para se alcançar o equilíbrio e desbloqueio energético (acupuntura sistêmica, microssistemas, eletroacupuntura, moxabustão e acupressão, entre outras), enquanto os florais, além de atuarem de forma específica em diversos tipos de emoções, podem ser tomados em gotas ou usados em forma de gel. Verifica-se, com isso, a possibilidade de variados formatos de aplicação a serem usados ao mesmo tempo, de forma separada ou conjunta.
Para além do que já foi citado, essa associação entre as práticas favoreceria a sinergia entre os sistemas nervoso, imunológico e endócrino, promovendo equilíbrio homeostático, auxiliaria nos processos mentais e também reduziria a necessidade de uso de medicamentos convencionais, minimizando efeitos colaterais.
Para o bem do avanço e futuro das PICs, é importante que associações como essa sejam pesquisadas de forma sistemática e metodológica e documentadas academicamente, com obtenção de certificação científica, já que tudo isso traz respaldo.
Falou-se apenas de duas PICs (acupuntura e terapia de florais), mas dentre as terapêuticas já incluídas no SUS ainda tem-se ayurveda, arteterapia, aromaterapia, constelação familiar, reiki, quiropraxia, musicoterapia, fitoterapia, ozonioterapia e meditação, entre outras, podendo ser feitas associações diversas.
Abordagens associando as PICs aumentariam as chances de um atendimento mais completo e personalizado pela avaliação ainda mais abrangente do paciente; diminuiriam o número de complicações e internações otimizando a gestão de condições crônicas e ainda reduziriam custos a longo prazo devido à melhora da adesão aos tratamentos, à diminuição das complicações e ao aumento da qualidade de vida da população.
Assim, as PICs deverão fazer parte de um processo renovador de promoção e restabelecimento da saúde, com práticas menos onerosas e mais acessíveis.
A visão da Organização Mundial de Saúde
Recentemente, o Informe Mundial de Saúde Mental da Organização Mundial de Saúde (OMS) expôs um pedido para que tomadores de decisão, defensores da saúde e profissionais da área intensifiquem ações e compromissos para modificar atitudes e abordagens nos tratamentos de saúde, seus determinantes e cuidados.
Ou seja, a necessidade de transformações nas abordagens foi detectada por essa importante organização, que pediu ambição para apoiar o mundo na transformação da saúde.
Tudo isso ficou voltado principalmente para a saúde mental e sabe-se que, contrariamente ao modelo biomédico, as PICs por diversos motivos ligados ao conceito de integralidade corpo-mente valorizam sobremaneira os cuidados nesse sentido, com abordagens que vão além do tratamento convencional, podendo auxiliar de forma relevante nessas mudanças.
A OMS ainda convida todas as partes interessadas a juntas darem o devido valor e firmarem o compromisso em relação a essa transformação na saúde, fortalecendo terapêuticas de cuidado com a saúde mental. E, como foi dito, as PICs comprovadamente são recursos importantes no cuidado com a saúde mental e física, sendo capazes de promover o bem-estar, reduzir o estresse e a ansiedade e auxiliar na recuperação de condições como a depressão e a insônia, entre outros feitos importantíssimos.
Observa-se, portanto, que os objetivos da OMS coadunam com aquilo que as PICs oferecem. E tudo isso colabora para que terapeutas integrativos organizem-se para revelar ainda mais a capacidade de ação das PICs sobre as patologias e para que pesquisas com terapias integrativas avancem, entendendo-se como especificamente importante a pesquisa no sentido de averiguar a eficácia da associação entre PICs, unindo práticas e abordagens de cada uma delas, na busca pela otimização de resultados.
Profa. Dra. Janine Soares Camilo – Ph.D. em Medicina Tradicional Indígena (Naturopatia e Homeopatia) pela Erich Fromm University, bacharel em Psicologia pela Fatra – Faculdade do Trabalho, master em Microsemiótica Irídea, bacharel em Cosmetologia e Estética pela Unitri – Universidade Integrada do Triângulo e pós-graduada em Acupuntura pelo IPGU – Instituto de Pós-Graduação de Uberlândia e em Homeopatia pela Faculdade Inspirar.
Referências bibliográficas
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