Pés diabéticos: nova tecnologia de tratamento com aplicação de fototerapia

Diabetes mellitus (DM) é uma designação que abrange um grupo de doenças metabólicas caracterizadas por hiperglicemia resultante de defeitos na secreção de insulina, na sua ação ou em ambos.

Na prática clínica, cerca de 90% dos casos são de DM do tipo 2 e 10% são do tipo 1.

O diabetes do tipo 2 permanece frequentemente não diagnosticado até que se manifestem sinais de complicações, como nefropatia, retinopatia, neuropatia, acidente vascular cerebral, doença arterial coronariana e pé diabético.

De acordo com dados do Ministério da Saúde, durante o período de 2006 e 2016, houve um aumento de 60% no diagnóstico da doença, sendo que o seu custo em termos de saúde pública tende a dobrar até 2030 (MS, 2018).

Fazendo-se uma análise mais global, em 2014 a cifra de diabéticos em todo o mundo era de 422 milhões de pessoas contra 108 milhões em 1980.

No Brasil, o percentual de pessoas acometidas dessa enfermidade é de 8,9% da população.

O diabetes é uma doença silenciosa e nem sempre o portador sabe que tem. A falta de controle glicêmico atinge 50% desse universo.

Os gastos com a doença chegam a R$ 100 bilhões/ano. Além do grande número de diagnosticados, os valores da insulina e dos medicamentos usados para o tratamento são muito elevados (MS, 2018).

Uma das complicações trazidas pelo diabetes mellitus (DM) é a ulceração ou destruição de tecidos profundos associados a anormalidades neurológicas e a vários graus de doença vascular periférica nos membros inferiores, mais conhecida como pé diabético.

Muitas vezes, quando o pé diabético não é tratado, a amputação constitui a única saída.

Pé diabético e suas complicações

Embora sejam muitas as patologias que afetam os indivíduos com diabetes, tais como doenças do coração, problemas renais e cegueira, as complicações com os pés são as mais representativas.

Em média, no Brasil, 40% a 70% das amputações não traumáticas de membros inferiores estão relacionadas ao diabetes, sendo que 85% delas são precedidas pela presença de úlceras nos pés (MS, 2018).

Os fatores mais importantes relacionados ao desenvolvimento de úlceras são: neuropatia periférica, deformidades no pé e traumatismos.

Muitos indivíduos com diabetes perdem a sensibilidade, podendo desenvolver deformidades e não percebem traumas superficiais repetitivos, rachaduras na pele ou danos nos pés.

O espectro das lesões nos pés varia nas diferentes regiões do mundo devido às condições socioeconômicas, padrões de cuidados, falta de calçados, assim como, uso de calçados impróprios, novos ou de utilização recente. Esses são os principais fatores causadores iniciais das úlceras nos pés.

Entretanto, mesmo nos dias atuais, a maioria dos pacientes diabéticos não recebe inspeção nem cuidado regular em relação a esse aspecto (Consenso Internacional sobre o Pé Diabético, 2001).

Pensando nessa situação, vem sendo elaborado, pelo Centro de Desenvolvimento Tecnológico da Universidade de Brasília (CDT-UnB), um dispositivo portátil que deverá ser utilizado de maneira associada para otimização dos efeitos de biomembranas (curativos) de látex, de forma a acelerar o processo de cicatrização de feridas em pés diabéticos.

Esse equipamento médico portátil, conhecido como Rapha – que significa “cura” em hebraico –, vem sendo desenvolvido e programado para ser um equipamento de baixo custo, de fácil manuseio e, principalmente, de alta efetividade no tratamento e cura de pés diabéticos.

O aparelho passou por longos períodos de testes em terapias de ensaios clínicos.

Até o momento, o Rapha já recebeu o selo de segurança do Inmetro e aguarda agora o registro da Anvisa, que permitirá sua produção em larga escala, por meio de parcerias com empresas.

Tecnologias disponíveis no mercado para o tratamento de pés diabéticos

As buscas por tratamentos efetivos de pés diabéticos, a fim de evitar complicações como amputações, não são recentes.

Na procura por evidências científicas a respeito de tratamentos para pés diabéticos, incluindo aqueles que não são oferecidos pelo SUS em escala nacional, realizou-se uma detalhada revisão de literatura, cujos resultados obtidos são apresentados a seguir.

Curativo de celulose (Membracel)

O curativo de celulose, ou Membracel, foi desenvolvido a partir do ano de 1992 pelo engenheiro florestal João Carlos Moreschi, que após acompanhar por anos as tentativas de cicatrização de úlceras de que sua mãe era portadora, buscou um método que visasse a auxiliar a secagem das feridas.

Após anos de estudos, em 2000, Moreschi começou a produzir a membrana regeneradora denominada Membracel.

Tal membrana é porosa e funciona como uma barreira fisiológica, isolando a ferida do contato com bactérias.

Ao mesmo tempo, permite a passagem de líquidos, facilitando assim a avaliação dos ferimentos, já que não há necessidade de retirar o curativo (Brasil, 2002; Braz et al., 2009).

O Membracel é feito a partir de uma membrana de celulose que tem a capacidade de substituir temporariamente a pele.

É um curativo biocompatível, inerte, isento de adesivos, atóxico, com textura extremamente fina e com alta resistência no estado úmido.

Tem uma versão com poros que permitem as trocas gasosas e a passagem do exsudato para um curativo secundário.

Devido às suas características, não é necessária a troca diária do produto, evitando possíveis traumas, promovendo o desenvolvimento do tecido de granulação, reduzindo a dor através do isolamento das terminações nervosas e acelerando o processo cicatricial (Cavalcanti, 2017).

O curativo Membracel pode ser usado em lesões e feridas de pele, como queimaduras, escoriações, lesões por pressão, úlceras arteriais e venosas, feridas de pé diabético, feridas cirúrgicas, lesões causadas por epidermólise bolhosa, lesões pós-cauterização ou laser ou em qualquer outra situação em que ocorra a falta da epiderme ou da derme.

O curativo não está disponível na rede pública de saúde, mas pode ser encontrado em farmácias, em tamanhos variados e nos formatos retangular e redondo.

Biomembrana de látex

Os primeiros estudos sobre o uso da seiva (látex) de algumas plantas e árvores foram realizados no ano de 1745, por Charles de La Condamine. Os resultados obtidos nessas pesquisas representam os documentos iniciais referentes à aplicação da borracha natural (Dall’Antonia, 2006).

Desde meados do século XVI até os dias atuais, a seiva de cor branca leitosa (borracha natural) vem sendo uma importante matéria-prima agrícola renovável, que se tornou essencial para a manufatura de um amplo espectro de produtos em todos os ramos da atividade humana.

Sabe-se que o látex de seringueira apresenta algumas propriedades únicas, superiores às de qualquer outro polímero.

Sua boa elasticidade, combinada com a baixa histerese mecânica, faz da borracha natural um material importante na produção de pneus, elementos de suspensão e para-choques, na fabricação de produtos leves com alta resistência, como balões, luvas cirúrgicas e preservativos e em inovações tecnológicas, como argamassas para construção civil, indústria aeronáutica e naval, tubos para usos em hospitais e centros cirúrgicos, compósitos condutores e materiais de alta precisão, como válvulas e retentores (Dall’Antonia, 2006).

Desde a década de 1990, a borracha natural vem sendo utilizada na área biomédica, sendo a terminologia látex a mais empregada no âmbito das pesquisas no setor de saúde.

A membrana de borracha natural obtida do látex de Hevea brasiliensis atua nos tecidos humanos através de sua capacidade de indução de angiogênese e neoformação tecidual, sendo um material que não causa danos, não é rejeitado pelo organismo, não apresenta toxidade e possui um baixo índice de manifestações alérgicas.

Seu uso proporciona sucesso em áreas da medicina como processos de cicatrização de úlceras flebopáticas, arteriais e diabéticas e de regeneração de regiões do corpo com queimaduras (Rippel, 2005).

Entre os benefícios do látex, destaca-se o fato de apresentar baixo custo e ser de fácil aquisição.

Por ser um material vegetal, não existe a preocupação com possível transmissão de vírus patogênicos para o ser humano, como os das hepatites B e C e o HIV, pois não necessita de “células doadoras humanas” (Oliveira, 2003).

A aplicação de novas coberturas, como a biomembrana de látex e outros tipos de curativos, associada também ao uso de equipamento de LED, têm-se mostrado como opção viável para cicatrização de feridas de membros inferiores.

Dispositivo portátil Rapha: descrição da tecnologia

O dispositivo portátil Rapha consiste em um sistema eletrônico móvel de neoformação tecidual, baseado nos princípios da fototerapia, que visa a auxiliar no tratamento de feridas, acelerando o processo cicatricial.

Seu circuito emissor de luz é formado por dois módulos: um módulo de controle e um módulo de matriz de LEDs.

Atualmente, a fototerapia com laser de baixa potência tem eficácia comprovada para o tratamento de inúmeras doenças, porém seus custos são elevados e seu manuseio é de difícil compreensão.

Nesse sentido, o dispositivo Rapha é visto como uma nova modalidade de fototerapia, com destaque para o seu baixo custo e utilização simples.

Ademais, o dispositivo Rapha consiste em um equipamento portátil e de fácil manuseio, que emite feixes de luz de LED, durante um tempo pré-determinado de aproximadamente 35 minutos.

Em termos técnicos, esse equipamento é formado por duas placas: a placa de LEDs e a placa de controle de tempo.

A placa de LEDs é composta por: a) cinquenta e quatro focos de LEDs de cor vermelha de alto brilho, b) três resistores de 180 ohms, c) um resistor de 330 ohms, d) três transistores NPN de uso geral e e) um conector Molex fêmea tipo KK.

A placa de controle de tempo é composta por: a) dois capacitores de 22pF, b) um microcontrolador PIC16F84A, c) dois resistores de 1K ohms, d) um resistor de 56 ohms, e) um buzzer 5V, f) um cristal mini de 4 MHz, g) um regulador de tensão mini 78L05, h) um LED verde difuso, i) um conector Molex fêmea tipo KK, j) uma barra de dois pinos macho e k) um transistor NPN de uso geral.

Dentre os benefícios esperados com a utilização desse novo equipamento, podem ser citados a possibilidade de tratamento domiciliar, realizado pelo próprio usuário, o descongestionamento dos espaços de assistência médica e a redução de gastos com as complicações resultantes dos avanços das feridas.

Estudo clínico desenvolvido com o uso do dispositivo Rapha associado à membrana de látex mostra que houve benefícios diretos aos participantes da pesquisa, tais como: a) melhorias na qualidade de vida, b) melhoria no humor e na autoestima (questões relatadas pelos próprios pacientes, enfermeiros e familiares), c) melhoria na qualidade de trabalho e deslocamento e d) melhoria da ferida.

Descrição das evidências científicas da tecnologia Rapha comparada às disponibilizadas no SUS

Acredita-se que os resultados dos estudos do projeto Rapha auxiliarão na tomada de decisão da comunidade médica em relação à enfermidade de pé diabético.

Ademais, incentivarão a utilização de novas técnicas de tratamento de feridas.

É notória a eficácia do uso da fototerapia de LED com cobertura de látex, que apresenta resultados positivos e rápidos no tratamento desse tipo de enfermidade.

Por outro lado, a aplicação dessa nova tecnologia gera uma desospitalização e redução nas filas de atendimento para pacientes que possuem problemas de locomoção aos centros de assistência.

Como já mencionado, o dispositivo vem sendo desenvolvido com base em seu baixo custo, alta eficiência e fácil manuseio, de forma que possa ser introduzido na rede pública de saúde e utilizado pelos usuários de maneira simples e descomplicada, sem que precisem sair de casa.

Uma vez que o equipamento seja incorporado ao SUS e adquirido pelos portadores de pé diabético, espera-se obter uma redução significativa nos gastos referentes ao tratamento convencional e também no número de complicações e de cirurgias que podem ser demandadas por esse problema de saúde.

Destaca-se ainda que, com a utilização do dispositivo em domicílio, o portador de pé diabético não precisa passar por transtornos que envolvam seu deslocamento aos espaços convencionais de assistência, além de obter melhora em sua autoestima, tendo em vista a diminuição na quantidade de possíveis acontecimentos constrangedores ocasionados pela exposição do ferimento que possui.

Nota: artigo elaborado com base em excerto do Capítulo 9 – Ozonioterapia: um estudo dos seus impactos econômicos no sistema de saúde SUS no Brasil para o grupo de risco de diabéticos. Novas tecnologias aplicadas à saúde: inovação, internet das coisas, horizontes e desafios, publicado em 2021, pela EDUERN. Fonte: https://portal.uern.br/wp-content/uploads/sites/14/2024/09/E-book-Novas-Tecnologias-Aplicadas-a-Saude.pdf.


Paula Meyer Soares – Professora na FGA-UnB – Universidade de Brasília.

Suélia de Siqueira Rodrigues Fleury Rosa – Professora na FGA-UnB – Universidade de Brasília.

Celina Martins Ramalho – Professora na FGV-SP – Fundação Getúlio Vargas.

Bruna Soares Passanezi – Professora na FAMEMA-Marília-SP – Faculdade de Medicina de Marília.

 

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