Terapia neural e acupuntura neural para libertação emocional

Situações físicas e emocionais pelas quais o indivíduo passa podem desregular o sistema nervoso autônomo (SNA), ou seja, a parte do sistema nervoso que é responsável pelo controle de funções corporais involuntárias, como frequência cardíaca, respiração, digestão e pressão arterial, que são processos essenciais para a manutenção da vida e bem-estar.

Percebe-se portanto que, entre outras atividades, esse sistema tem relação com respostas importantes que o ser humano dá a situações de emergência e estresse, exposição a toxinas, controle de temperatura, regulação do sono, necessidade de relaxamento do corpo, expressão de emoções, etc., sendo assim de suma importância para a manutenção do equilíbrio interno e da homeostase.

Ocorre que o SNA recebe informações do sistema límbico, que é responsável pelo processamento das emoções e as usa para modular as reações ou respostas do corpo.

Utiliza-se de neurotransmissores como epinefrina, norepinefrina e acetilcolina — que desempenham papel essencial na comunicação bem-sucedida do SNA e na experiência emocional — para regular funções. Nesse sentido, observa-se sua ligação com as emoções, sendo que ele pode, portanto, influenciar na saúde emocional.

Respostas fisiológicas como o aumento da frequência cardíaca em momentos de medo e necessidade de fuga são importantes na forma como as emoções são experienciadas e expressas. Mas experiências traumáticas podem provocar imobilização ou dissociação ao ativar uma resposta desproporcional (desequilíbrio químico no cérebro), o que destaca o papel do SNA também no bem-estar psicológico. Dessa forma, se ele está afetado pode ocorrer uma variedade de sintomas, incluindo situações emocionais como transtornos de ansiedade e depressão.

Assim, no caso de um indivíduo que passa por uma situação em que o SNA é alterado, como por exemplo em um grande susto, é possível que as funções inerentes a esse sistema tornem-se excessivamente sensíveis e até disfuncionais, devido à dificuldade do SNA em fazer com que o corpo retorne a um estado de calma.

Isso traz sintomas físicos e emocionais que vão prolongar e alimentar a ansiedade, podendo produzir uma situação desproporcional (como um transtorno de ansiedade), ou seja, uma resposta inadequada, já que o corpo reage de forma exagerada ao estímulo de estresse, tendo dificuldade para recuperar-se após o evento.

Se a desregulação ou o desequilíbrio químico persiste, pode provocar fadiga, dores de cabeça, insônia, perda ou ganho de apetite, alterações na respiração, etc.

Prolongando-se ainda mais, acaba por fazer com que o indivíduo acometido precise buscar por um tratamento que o ajude a regular novamente o SNA e suas emoções. Precisará de uma ajuda profissional para identificar e tratar essa desregulação, com o intuito de reduzir a ansiedade e voltar a ter qualidade de vida.

Um bom exemplo disso é quando um indivíduo tem uma crise de pânico, que consiste em uma sensação de medo e mal-estar intensos, acompanhada de sintomas físicos e cognitivos. Essa crise pode ser resultado de uma combinação de fatores biológicos, ambientais e psicológicos, podendo estar ligada a uma resposta desproporcional do sistema nervoso simpático, que é uma das partes do SNA.

Acupuntura neural

Há casos de ansiedade em que tratamentos convencionais, como psicoterapia e medicamentos ou a associação entre eles, não são capazes de proporcionar uma solução efetiva, devendo-se então aliar terapias como a acupuntura neural.

A acupuntura é uma terapia integrativa, pois considera o ser humano como um todo, fazendo a conexão entre os aspectos físicos e emocionais. Para além de todos os comprovados benefícios dessa terapia, na acupuntura neural pondera-se ainda a participação do sistema nervoso autônomo (SNA) nos processos de adoecimento.

Assim, por meio de anamnese, o profissional capacitado avalia os processos pelos quais o indivíduo tem passado, as evidências e vivências responsáveis pelos sofrimentos e incômodos, interpretando a queixa dele e buscando relacionar a dinâmica do SNA aos sintomas físicos e emocionais apresentados.

Por meio disso, chega-se a uma suspeita sobre qual região do organismo pode ser uma área de interferência em que haja uma interrupção do fluxo normal do sistema nervoso causando sintomas à distância (cicatrizes, dentes que sinalizam problemas, áreas de irritação e outros). Com isso, é possível avaliar locais ou áreas em que o tratamento deve ser realizado.

Partindo da suspeita, busca-se verificar na boca, nos pontos de acupuntura, nas cicatrizes e em outros locais do corpo, como regiões dolorosas, se há ali um campo interferente. Para tal, realiza-se o teste de BDORT (teste de campos interferentes) e a palpação local.

Na região identificada, é aplicado um anestésico bastante diluído, analisando-se se assim ocorre diminuição ou desaparecimento dos sintomas. Caso isso aconteça, constata-se que o local é de fato um campo interferente para o problema apresentado — nesse sentido observa-se que a terapia neural pode funcionar também como um diagnóstico diferencial. No caso de os sintomas só diminuírem, é feita uma nova aplicação até o desaparecimento dos sintomas.

O anestésico aplicado (geralmente a procaína), em baixa concentração (dose máxima de 0,7%) e no local a ser verificado (com aplicação subcutânea) vai provocar no corpo uma melhoria no SNA, a ponto de equilibrá-lo e de trazer homeostase corporal, atuando portanto para o bem-estar geral.

A substância anestésica utilizada possui um potencial em milivolts capaz de causar a repolarização da célula que retoma então um potencial de membrana equilibrado. Essa substância sofre rápida metabolização por uma enzima, tendo assim uma boa tolerância, inclusive em idosos.

Dessa forma, verifica-se que o objetivo não é promover anestesia local e sim produzir alterações no potencial de repouso da membrana celular. Por meio da geração de estímulos direcionados com a agulha de acupuntura e, em seguida, da extinção seletiva de outros estímulos por meio do anestésico, modifica-se a organização do sistema nervoso, cessando o círculo vicioso da dor ou estímulo irritativo.

Recurso integrativo para o corpo e a mente

A concepção desse tipo de tratamento surgiu na Europa, através de estudos sobre o sistema nervoso, inicialmente com os russos Pavlov e Speransky, sendo depois aprimorada pelos irmãos Huneke, que a batizaram como terapia neural, em 1925.

Trata-se de mais um recurso integrativo que ativa ações regulatórias e compensatórias para o tratamento de corpo e mente.

Pontos de acupuntura relacionados a órgãos internos e microssistemas também são utilizados na terapia neural para se alcançar a homeostase orgânica e emocional. Essa aplicação neutraliza irritações que dificultam o funcionamento do tono neurovegetativo desencadeando doenças.

Ou seja, o que ocorre no organismo é que ele sofre com um estímulo irritativo que afeta o indivíduo, mas que tende a se autorregular. No entanto, a irritação pode ter a capacidade de gerar um campo eletromagnético interferente que afeta a saúde das células ao abalar o funcionamento normal da transmissão nervosa. E isso é algo em que a acupuntura neural pode ser aplicada para auxiliar ou solucionar.

Essa terapêutica é usada para amenizar dores agudas e crônicas, sintomas da menopausa, alergias, tendinites, hérnias de disco, fibromialgia, menstruação irregular e cefaleia ou ainda para a redução de sintomas de estresse, fadiga, insônia, depressão, lapsos de memória e dificuldades de concentração, levando a melhorias importantes nos casos de distúrbios circulatórios, doenças autoimunes e doenças nos órgãos internos.

Essas são apenas algumas das possíveis patologias a serem tratadas, sendo que essa forma de terapia pode ser aproveitada para qualquer situação em que a saúde foi afetada, o que a torna valiosa para o bem-estar em geral, já que a acupuntura funciona por meio de mecanismos e estímulos corporais que induzem a liberação de substâncias associadas ao bem-estar, como endorfina e serotonina, auxiliando na promoção de restabelecimento do equilíbrio e da funcionalidade corporal.

Emoções disfuncionais integram os sintomas de transtornos mentais, sendo fonte de sofrimento. O tratamento relacionado a processos neurais envolvidos nesses casos possibilita a aplicação de novas estratégias, abordagens e recursos de melhoria que vão ao encontro da solução para situações de saúde, inclusive para aquelas em que outros tratamentos convencionais não obtêm resposta.

Para além disso, essa terapêutica é capaz ainda de diminuir a necessidade de uso de medicamentos para eliminação de sintomas, assim como de evitar o fenômeno da cascata de medicação, em que outros medicamentos complementares são utilizados para suprir os danos e efeitos colaterais causados pela própria medicação primária, resultando em maiores déficits na qualidade de vida do indivíduo.

Esse tratamento integrativo não apresenta riscos à saúde e é aplicado num curto espaço de tempo, tendo um grande valor terapêutico ao interromper a cascata de eventos inflamatórios que levam à manutenção de dores e ao promover também a libertação emocional e a secreção de ocitocina ou “hormônio do amor”.

Dessa forma, desempenha um papel crucial em várias funções fisiológicas, emocionais e comportamentais, contribuindo para o prazer e bem-estar e, com isso, reduzindo drasticamente infortúnios como a ansiedade e depressão, que são problemas de saúde pública por atingir parte expressiva da população.


Profa. Dra. Janine Soares Camilo – Ph.D. em Medicina Tradicional Indígena (Naturopatia e Homeopatia) pela Erich Fromm University, bacharel em Psicologia pela Fatra – Faculdade do Trabalho, master em Microsemiótica Irídea, bacharel em Cosmetologia e Estética pela Unitri – Universidade Integrada do Triângulo e pós-graduada em Acupuntura pelo IPGU – Instituto de Pós-Graduação de Uberlândia e em Homeopatia pela Faculdade Inspirar.

 

Referências bibliográficas

Gonçalves, Bruna Aparecida Lima et al. Tratamento com Terapia Neural em cão com sequela de cinomose: Relato de caso. PubVet, v. 13, p. 158, 2019. Disponível em https://vethealing.com.br/wp-content/uploads/2020/02/tn-cinomose.pdf. Acesso em 16 de ago. 2025.

Lantrip C., Szabo Y. Z., Kozel F. A. Neuromodulação como estratégia de aumento para terapias comportamentais para ansiedade e TEPT: uma revisão narrativa. Curr Treat Options Psychiatry. 2022 Sep 14;9:406-418. PMID: 36714210; PMCID: PMC9881183. Disponível em https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9881183/. Acesso em 16 de ago. 2025.

Moura, Paolla Hermenegildo et al. Aspectos Neurofisiológicos da Acupuntura na Analgesia – Revisão Narrativa. Revista Foco, v. 18, n. 5, p. e8246-e8246, 2025. Disponível em https://ojs.focopublicacoes.com.br/foco/article/view/8246. Acesso em 16 de ago. 2025.

Varão, Juliana Portela Duarte. A terapia neural no tratamento de dores crônicas da cabeça e pescoço. 2022. Dissertação de Mestrado. Egas Moniz School of Health and Science (Portugal). Disponível em https://www.proquest.com/openview/5f865529aa9e398a127ce9b7c117200c/1?pq-origsite=gscholar&cbl=2026366&diss=y. Acesso em 17 de ago. 2025.