Medicina tradicional chinesa no manejo de efeitos adversos da quimioterapia em câncer de ovário

A medicina tradicional chinesa (MTC) tem sido integrada de forma crescente ao cuidado de mulheres com câncer de ovário submetidas à quimioterapia (QT), sobretudo porque esse tratamento, baseado predominantemente em compostos de platina e taxanos, produz um conjunto complexo de toxicidades sistêmicas que afetam múltiplos sistemas fisiológicos e comprometem de maneira significativa a qualidade de vida (Zhang et al., 2023).

A quimioterapia, ao mesmo tempo em que exerce potente ação citotóxica sobre células tumorais, também interfere em vias metabólicas essenciais, gerando náuseas e vômitos refratários, fadiga oncológica persistente, mielossupressão, neuropatia periférica induzida por quimioterapia (CIPN), alterações gastrointestinais como diarreia, constipação e anorexia, além de impacto emocional e funcional que se acumula ao longo dos ciclos (Zhang et al., 2023).

Na perspectiva fisiopatológica da medicina tradicional chinesa, esses efeitos não são apenas manifestações isoladas, mas expressões de um desequilíbrio profundo provocado pela agressão quimioterápica sobre os sistemas energéticos fundamentais do organismo (Tang et al., 1999).

Segundo a MTC, a quimioterapia é compreendida como um agente que consome intensamente o Qi, o sangue (Xue) e a essência (Jing) – (Tang et al., 1999).

O Qi, responsável por movimentar, proteger, transformar e sustentar as funções vitais, é rapidamente drenado pela toxicidade sistêmica dos quimioterápicos, o que resulta em fadiga intensa, fraqueza muscular, redução da capacidade de recuperação entre ciclos e maior susceptibilidade a infecções (Garcia  et al., 2014).

O Xue, que nutre tecidos e sustenta a mente, também é afetado, refletindo-se na mielossupressão observada clinicamente, com queda de hemoglobina, leucócitos e plaquetas.

Para a medicina tradicional chinesa, essa queda hematológica representa uma deficiência de Xue, que se manifesta como palidez, tontura, palpitações, instabilidade emocional e redução da vitalidade geral (Garcia et al., 2014).

O Jing, armazenado nos rins e responsável pela regeneração tecidual, pela vitalidade profunda e pela resistência ao adoecimento, é igualmente comprometido. A perda de Jing expressa-se em sinais como queda de cabelo, redução da libido, sensação de envelhecimento acelerado e diminuição da capacidade de recuperação física e emocional (Greenlee et al., 2014).

Além disso, a quimioterapia (QT) compromete de maneira marcante a função do sistema baço-estômago, que na MTC é responsável pela transformação dos alimentos em Qi e Xue e pelo transporte adequado desses nutrientes pelo corpo (Greenlee et al., 2014).

Quando esse sistema é lesado, surgem anorexia, náuseas, vômitos, distensão abdominal, diarreia, constipação e perda ponderal (Noh et al., 2018).

A lentificação da digestão e da absorção energética contribui para a sensação de fraqueza e para a incapacidade do organismo de se reequilibrar entre os ciclos de QT (Noh et al., 2018).

Paralelamente, a agressão quimioterápica favorece a estagnação de Qi e Xue, que se manifesta como dor pélvica, dor lombar, sensação de peso, distensão abdominal e desconforto generalizado.

Esse conjunto de padrões (deficiência de Qi do baço, deficiência de Yin do rim, deficiência de Xue e estagnação de Qi e Xue) compõe o quadro energético típico de pacientes em tratamento para câncer de ovário, segundo a medicina tradicional chinesa (Huang et al., 2020).

Fitoterapia chinesa

A fitoterapia chinesa, que é um dos pilares da MTC, tem sido amplamente estudada no contexto de integrar as duas medicinas (convencional e chinesa) num tratamento mais adequado.

Diversas fórmulas tradicionais, compostas por combinações de ervas que tonificam o Qi e Xue, harmonizam o estômago e modulam o sistema imunológico, demonstram capacidade de reduzir a intensidade dos efeitos adversos da quimioterapia (Huang et al., 2020).

Estudos clínicos mostram que essas fórmulas podem preservar contagens linfocitárias, reduzir a incidência de neutropenia de grau 3-4, melhorar parâmetros imunológicos como CD3⁺ e CD4⁺ e aumentar o índice de Karnofsky, refletindo maior funcionalidade e tolerância ao tratamento (Li et al., 2013).

Embora a heterogeneidade metodológica dos estudos limite a tomada de conclusões definitivas, há consistência na observação de que a fitoterapia chinesa reduz a toxicidade hematológica e gastrointestinal, favorecendo uma melhor adesão ao tratamento.

Do ponto de vista biomédico, acredita-se que compostos bioativos presentes nas ervas chinesas modulam as vias inflamatórias, reduzem o estresse oxidativo, influenciam a hematopoese e regulam a motilidade gastrointestinal, o que explica parte dos benefícios observados (Li et al., 2013).

A fitoterapia chinesa é um dos recursos mais estudados dentro da MTC no contexto do manejo dos efeitos adversos da quimioterapia (QT), especialmente em pacientes com câncer de ovário.

As fórmulas tradicionalmente utilizadas têm como objetivo principal tonificar o Qi e Xue, harmonizar o estômago e modular o sistema imunológico, sendo que esses efeitos combinados parecem exercer impacto direto na redução da intensidade das toxicidades provocadas pela QT (Li et al., 2013).

Em estudos clínicos, observa-se que a administração dessas fórmulas durante o tratamento quimioterápico contribui para preservar contagens linfocitárias, o que é particularmente relevante em um cenário em que a mielossupressão é uma das complicações mais frequentes e debilitantes.

Além disso, há evidências de que o uso concomitante de fitoterapia diminui a incidência de neutropenia de grau 3-4, que é um dos eventos adversos que mais frequentemente leva à interrupção ou atraso dos ciclos de QT (Posadzki et al., 2013).

Diversos estudos relatam que a combinação de fitoterapia chinesa com quimioterapia resulta em melhora de parâmetros imunológicos, incluindo aumento de células CD3⁺ e CD4⁺, que são fundamentais para a resposta imune adaptativa (Ge et al., 2022).

Essa melhora imunológica se traduz clinicamente em maior estabilidade funcional, frequentemente mensurada por escalas como o índice de Karnofsky, que avalia a capacidade da paciente de realizar atividades cotidianas e tolerar o tratamento (Posadzki et al., 2013).

Embora a heterogeneidade metodológica dos estudos, envolvendo diferenças nas fórmulas utilizadas, nos desenhos experimentais e nos critérios de avaliação, limite conclusões definitivas, há consistência na observação de que essas intervenções reduzem a toxicidade hematológica e gastrointestinal, favorecendo uma melhor tolerância ao tratamento quimioterápico como um todo (Ge et al., 2022).

Acredita-se que os compostos bioativos presentes nas ervas chinesas atuem modulando vias inflamatórias, reduzindo o estresse oxidativo e influenciando diretamente a hematopoese (Meng et al., 2022).

Esses mecanismos explicam, ao menos em parte, os efeitos observados na prática clínica, como a preservação de células imunes, a redução de quadros de neutropenia e a melhora geral da capacidade funcional das pacientes (Meng et al., 2022).

Dessa forma, a fitoterapia chinesa apresenta-se como um recurso complementar relevante, capaz de atenuar os efeitos adversos da QT sem desviar do foco terapêutico principal, contribuindo para um tratamento mais tolerável e potencialmente mais eficaz (He et al., 2023).

Acupuntura

A acupuntura atua por mecanismos neurofisiológicos bem documentados, que explicam sua utilidade no manejo dos efeitos adversos da quimioterapia (Li et al., 2019).

Esses mecanismos envolvem a modulação de neurotransmissores, a liberação de endorfinas, a regulação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e a influência direta sobre vias autonômicas que controlam funções digestivas, imunológicas e sensoriais (Li et al., 2019).

A estimulação de pontos específicos desencadeia respostas que repercutem tanto no sistema nervoso central quanto no sistema nervoso periférico, permitindo que a acupuntura reduza sintomas como náuseas, vômitos, fadiga, dor e neuropatia (Xiang et al., 2019).

Pontos como PC6 (Neiguan) e ST36 (Zusanli) são amplamente utilizados para o controle de náuseas e vômitos, pois influenciam a motilidade gastrointestinal e modulam centros eméticos centrais, reduzindo a hiperatividade das vias que desencadeiam o reflexo do vômito (Xiang et al., 2019).

A escolha desses pontos baseia-se na capacidade de regular o movimento do Qi no tórax e no abdome, harmonizando o estômago e acalmando a resposta autonômica exacerbada pela quimioterapia (Faria et al., 2024).

Para fadiga e imunossupressão, pontos como CV6, CV12, BL20 e BL23 são empregados com o objetivo de tonificar o Qi e fortalecer o baço e rim, estruturas fundamentais na fisiologia energética da MTC (Faria et al., 2024).

A estimulação desses pontos favorece a recuperação da vitalidade, melhora a disposição e auxilia na estabilização da função imunológica, que frequentemente se encontra comprometida durante o tratamento quimioterápico.

Já para o controle da dor pélvica e lombar, pontos analgésicos como LI4, LV3 e GB34 são utilizados, por sua capacidade de promover a circulação de Qi e Xue, aliviar tensões musculares e reduzir a percepção dolorosa por meio da modulação de vias nociceptivas (Faria et al., 2024).

A neuropatia periférica induzida por taxanos, uma das complicações mais debilitantes da QT, também tem sido alvo de protocolos específicos de acupuntura.

Esses protocolos geralmente estimulam regiões distais dos membros, buscando modular a transmissão de sinais dolorosos e restaurar a função sensorial (Xiang et al., 2019).

Estudos mostram que essa abordagem pode melhorar parestesias, reduzir dor neuropática e aumentar a sensibilidade vibratória, possivelmente por meio da modulação de fibras A-delta e fibras C, além da redução de mediadores inflamatórios periféricos que contribuem para a lesão nervosa (Xiang et al., 2019).

Dessa forma, a acupuntura apresenta-se como uma ferramenta complementar capaz de atuar de maneira integrada sobre diferentes manifestações clínicas da toxicidade quimioterápica, oferecendo alívio sintomático e contribuindo para uma melhor tolerância ao tratamento (Ge et al., 2022).

Comentários finais

Na prática clínica integrativa, a medicina tradicional chinesa é utilizada como adjuvante, nunca como substituta das terapias oncológicas convencionais, e essa diretriz orienta toda a forma como ela é incorporada ao cuidado de pacientes em quimioterapia (Ge et al., 2022).

A aplicação da MTC exige uma seleção criteriosa das pacientes, que começa pela avaliação minuciosa dos padrões energéticos, do estado funcional e dos sintomas predominantes (Zhang et al., 2022).

Essa avaliação permite individualizar o tratamento, ajustando as intervenções às necessidades específicas de cada mulher, de modo que a MTC complemente o tratamento oncológico sem interferir em sua eficácia.

A segurança é um ponto central nesse processo, especialmente no uso da fitoterapia chinesa, que deve ser prescrita com atenção rigorosa às possíveis interações farmacocinéticas com quimioterápicos (Zhang et al., 2022).

Como muitos quimioterápicos dependem do metabolismo hepático e da função renal para sua eliminação, é essencial que as ervas utilizadas não alterem essas vias de forma prejudicial.

Por isso, recomenda-se que a fitoterapia seja sempre administrada com produtos padronizados e de qualidade controlada e dentro de protocolos que considerem o estado clínico da paciente e o esquema quimioterápico em curso (Faria et al., 2024).

Dessa forma, a MTC integra-se ao tratamento oncológico como uma abordagem complementar segura, cuidadosamente planejada e adaptada às condições individuais de cada paciente, contribuindo para o manejo dos efeitos adversos e para a melhoria global da experiência terapêutica.


Mari Uyeda – Professora Assistente da Saint Francis University, Pensilvânia/EUA e estudante de Medicina – UNE.

 

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