O coração acompanha cada momento da vida através de um ritmo contínuo de contração e relaxamento que assegura a circulação sanguínea e a manutenção da homeostasia.
A sístole e a diástole representam duas fases complementares desse processo, refletindo a extraordinária capacidade adaptativa do organismo perante os desafios físicos, metabólicos, ambientais e emocionais.
Os avanços da cardiologia, da epigenética e da medicina integrativa permitem compreender que a saúde cardiovascular resulta da interação entre predisposição genética, estilo de vida, alimentação, ambiente e mecanismos reguladores da expressão gênica.
Nesse contexto, biomarcadores como o NT-proBNP assumem particular relevância ao fornecer informação sobre a resposta do coração às diferentes cargas funcionais.
Este artigo explora a fisiologia cardíaca sob uma perspectiva integrativa, analisando o papel da sístole, da diástole, do NT-proBNP, da epigenética, da alimentação funcional e da nutracêutica na promoção da saúde cardiovascular e da longevidade.
O coração e o primeiro ritmo da vida
O coração é o primeiro órgão funcional a desenvolver-se durante a vida embrionária e o último a cessar a sua atividade.
Desde os primeiros batimentos acompanha todas as etapas da existência humana, ajustando-se permanentemente às necessidades do organismo.
Acelera perante o exercício físico, adapta-se às emoções, responde ao estresse, abranda durante o repouso e reorganiza continuamente a distribuição de oxigênio e nutrientes pelos tecidos.
Durante muito tempo, a medicina descreveu o coração sobretudo como uma bomba muscular. Embora essa definição continue correta do ponto de vista anatômico, revela-se insuficiente para explicar a complexidade da sua função.
Atualmente compreende-se que o coração integra uma sofisticada rede de comunicação biológica, envolvendo o sistema nervoso autônomo, o sistema endócrino, os mecanismos inflamatórios, o metabolismo energético e os processos adaptativos celulares.
Cada batimento traduz uma resposta dinâmica às exigências da vida.
Sístole e diástole: a biologia do equilíbrio
O ciclo cardíaco desenvolve-se através da alternância entre duas fases essenciais.
A sístole corresponde à contração do músculo cardíaco e à ejeção do sangue para a circulação sistêmica e pulmonar.
A diástole corresponde ao relaxamento ventricular, ao enchimento cardíaco e à recuperação energética do miocárdio.
Essas duas fases não competem entre si. Complementam-se.
A eficiência cardíaca depende tanto da capacidade de contração como da qualidade do relaxamento. Um coração que não relaxa adequadamente perde progressivamente a sua capacidade de adaptação, mesmo quando a força contrátil permanece aparentemente preservada.
Essa alternância constitui um dos exemplos mais notáveis de equilíbrio biológico. A natureza funciona através de ciclos. O dia sucede à noite. A inspiração é seguida pela expiração. O esforço exige recuperação.
Também o coração encontra a sua estabilidade nessa alternância permanente entre ação e regeneração.
Quando a adaptação transforma-se em sobrecarga
O organismo humano possui extraordinários mecanismos de adaptação.
Perante uma situação de esforço físico, desafio emocional ou alteração metabólica, o sistema cardiovascular responde através de ajustes que permitem preservar a homeostasia.
Contudo, quando os estímulos são excessivos, frequentes ou prolongados, a adaptação pode transformar-se em sobrecarga.
Hipertensão arterial, obesidade, resistência à insulina, inflamação crônica de baixo grau, sedentarismo, privação de sono e estresse persistente são exemplos de fatores que aumentam progressivamente a exigência imposta ao coração.
Nessas circunstâncias, o organismo ativa mecanismos compensatórios destinados a reduzir a tensão cardiovascular e a preservar a função cardíaca.
É nesse contexto que surgem biomarcadores de grande relevância clínica.
NT-proBNP: um indicador da resposta cardiovascular
Entre os biomarcadores mais utilizados na prática clínica destaca-se o NT-proBNP (N-terminal pro-B-type Natriuretic Peptide).
Essa molécula resulta da clivagem do pró-BNP, produzido pelos cardiomiócitos ventriculares quando aumenta a tensão exercida sobre as paredes cardíacas.
A sua produção pode aumentar em diferentes contextos, incluindo sobrecarga de volume, sobrecarga de pressão, distensão ventricular, alterações da função sistólica, alterações da função diastólica, processos inflamatórios persistentes, ativação neuro-hormonal prolongada e situações de estresse físico e emocional crônico.
O NT-proBNP traduz, de forma mensurável, a resposta do coração perante diferentes níveis de exigência fisiológica.
Os seus valores refletem alterações da carga hemodinâmica e da tensão exercida sobre o miocárdio, permitindo compreender como o sistema cardiovascular procura preservar o equilíbrio funcional perante desafios mecânicos, metabólicos e neuro-hormonais.
Paralelamente, o BNP biologicamente ativo promove mecanismos de proteção cardiovascular, incluindo vasodilatação, natriurese e redução da atividade do sistema renina-angiotensina-aldosterona.
Estresse físico e emocional: o impacto silencioso
A saúde cardiovascular não depende apenas de fatores anatômicos ou metabólicos.
A investigação científica das últimas décadas demonstrou a profunda ligação entre o sistema cardiovascular e os mecanismos neuroendócrinos envolvidos na resposta ao estresse.
Sempre que o organismo interpreta uma situação como ameaçadora, ocorre ativação do sistema nervoso simpático e do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Em situações agudas, essa resposta é adaptativa e necessária.
Todavia, quando a ativação torna-se crônica, podem surgir alterações importantes, como elevação persistente da pressão arterial, aumento da frequência cardíaca, disfunção endotelial, inflamação sistêmica, alterações metabólicas e remodelação cardiovascular progressiva.
Por essa razão, a gestão do estresse, a qualidade do sono, a atividade física regular e o equilíbrio emocional assumem um papel cada vez mais relevante nas estratégias de prevenção cardiovascular.
Epigenética: quando o ambiente influencia a expressão genética
Uma das descobertas mais transformadoras da biologia moderna foi perceber que os genes não funcionam como um destino imutável.
A epigenética estuda os mecanismos que regulam a expressão genética sem alterar a sequência do DNA.
Através de processos como a metilação do DNA, modificações das histonas e regulação por microRNA, o organismo adapta continuamente a atividade dos seus genes às condições ambientais.
A alimentação, o exercício físico, a exposição a poluentes, o estresse, a qualidade do sono e os hábitos de vida influenciam diretamente esses mecanismos reguladores.
Diversos estudos associam alterações epigenéticas ao desenvolvimento de hipertensão arterial, aterosclerose, insuficiência cardíaca e envelhecimento vascular.
Essa perspectiva reforça uma mensagem fundamental: embora não possamos modificar a herança genética recebida, podemos influenciar significativamente a forma como essa herança é expressa ao longo da vida.
Alimentação funcional: nutrir e comunicar
A alimentação constitui um dos mais importantes moduladores da saúde cardiovascular.
Os alimentos fornecem energia, mas também transportam moléculas capazes de interagir com vias metabólicas, inflamatórias e epigenéticas.
A alimentação funcional privilegia alimentos naturalmente ricos em compostos bioativos que contribuem para a manutenção do equilíbrio fisiológico.
Entre os componentes mais estudados destacam-se os seguintes: polifenóis, flavonoides, carotenoides, fibras fermentáveis, compostos sulfurados e ácidos graxos ômega-3.
Esses compostos participam na modulação da inflamação, do estresse oxidativo, da função endotelial e da saúde do microbioma intestinal.
O padrão alimentar mediterrânico permanece como uma das estratégias nutricionais mais consistentes na prevenção cardiovascular, associando-se a menor incidência de doença coronária, acidente vascular cerebral e mortalidade cardiovascular.
Nutracêutica: complementar a fisiologia
A nutracêutica integra nutrientes e compostos bioativos utilizados para apoiar funções fisiológicas específicas.
Na área cardiovascular, alguns dos compostos mais estudados incluem os descritos a seguir.
Ômega-3 (EPA e DHA) – associado à modulação inflamatória, à saúde vascular e ao equilíbrio lipídico.
Magnésio – fundamental para a função muscular, neurológica e cardiovascular, participando em centenas de reações enzimáticas.
Coenzima Q10 – importante para a produção de energia mitocondrial e frequentemente estudada em contexto cardiovascular.
Curcumina – reconhecida pelas suas propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias.
Resveratrol e outros polifenóis – associados à proteção vascular e à modulação de vias celulares relacionadas com o envelhecimento saudável.
A utilização desses compostos deve ser individualizada e integrada numa estratégia global que inclua alimentação equilibrada, atividade física, sono adequado e acompanhamento clínico.
Nutrigenética e personalização da prevenção
A nutrigenética procura compreender como as diferenças genéticas individuais influenciam a resposta aos nutrientes e às intervenções nutricionais.
Essa abordagem permite adaptar estratégias preventivas às características biológicas de cada pessoa.
A personalização da nutrição representa uma das áreas mais promissoras da medicina preventiva moderna, possibilitando intervenções mais precisas e potencialmente mais eficazes na gestão do risco cardiovascular.
A integração entre nutrigenética, epigenética e medicina integrativa abre caminho para uma abordagem centrada na pessoa, valorizando a singularidade biológica de cada indivíduo.
Conclusão
O coração acompanha toda a trajetória humana através de um ritmo contínuo de adaptação.
A sístole e a diástole recordam-nos que a saúde depende da capacidade de equilibrar ação e recuperação, exigência e regeneração.
Os biomarcadores cardiovasculares, nomeadamente o NT-proBNP, permitem compreender de forma mais aprofundada a resposta do coração às diferentes cargas funcionais que enfrenta ao longo da vida.
A epigenética demonstra que a expressão da saúde cardiovascular resulta de uma interação permanente entre genética e ambiente.
A alimentação funcional, a nutracêutica e a nutrigenética oferecem ferramentas capazes de influenciar positivamente essa interação, reforçando a capacidade adaptativa do organismo.
Promover a saúde cardiovascular implica olhar para além da doença. Significa compreender os mecanismos que sustentam a resiliência biológica, reconhecer a importância das escolhas diárias e valorizar a extraordinária capacidade que o organismo possui para se adaptar, regenerar e encontrar equilíbrio.
No compasso de cada batimento cardíaco encontra-se uma das mais notáveis expressões da vida: a procura contínua da harmonia entre o que nos desafia e aquilo que nos permite recuperar.
Paula Mouta – Presidente do Observatório da Saúde dos Povos – AESEP, diretora da Unidade SER – QUANTUM Global Care, Lisboa e representante em Portugal da AGONAB – Associação Geral da Ordem dos Naturologistas do Brasil. ORCID: https://orcid.org/0009-0008-8988-651X.
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