Os médicos prescrevem fitoterápicos? Influência da formação do médico na sua prescrição

Diante do contexto atual da formação dos profissionais médicos, que se baseia no tratamento com medicamentos de síntese, surge um questionamento natural: os médicos prescrevem fitoterápicos?

Começo respondendo afirmativamente: sim, os médicos prescrevem plantas medicinais e fitoterápicos. No entanto, não considero esse o fato principal para a análise, isto é, o “sim” a esse questionamento não é uma resposta que encerra o assunto, pois muitos médicos prescrevem fitoterápicos, muitos não o fazem, outros não acreditam, mas, no entanto, não temos um estudo amplo e global que forneça o percentual de cada um desses grupos.

O importante a ser destacado é que a grande maioria não está preparada para prescrevê-los, ou seja, não tem conhecimentos suficientes para fazê-lo. Esse, sim, é o ponto de partida para que sejam realizadas algumas reflexões.

Conhecimento adquirido

Os elementos disponíveis na natureza serviram, desde a criação da humanidade até o início do século XX, como atenuantes para os problemas de saúde tanto dos animais quanto dos seres humanos e dentre esses elementos destacam-se as espécies vegetais.

Utilizadas inicialmente de modo empírico por diferentes grupos populacionais, em áreas distintas do planeta, através da observação do uso humano e do comportamento dos animais, as plantas eram usadas à época pela população para aliviar ou curar suas mazelas. E todo o conhecimento a respeito delas foi passado de geração a geração, firmando um registro cultural consistente das suas atividades farmacológicas e dos efeitos colaterais.

Dessa forma, as plantas encontradas em cada bioma passíveis de uso pelos seres humanos foram sendo identificadas e selecionadas. E aquelas que apresentavam algum grau de toxicidade ou efeito colateral nefasto eram afastadas do elenco suscetível de uso.

Assim, durante muitos e muitos séculos as espécies vegetais tornaram-se praticamente o único mecanismo de tratamento.

Apenas no final do século XIX, com o advento da química, foi possível o isolamento das substâncias presentes em cada planta (fitocomplexo). O avanço científico e nas técnicas farmacêuticas propiciaram o isolamento de cada vez mais substâncias químicas, o que posteriormente facilitou a identificação das substâncias isoladas. Com isso, foram possíveis a criação e a produção dos primeiros medicamentos de síntese.

A partir daí, houve mudança de paradigma no modo de tratar, isto é, a farmácia se desenvolveu rapidamente e a medicina se transformou. Acreditando ser possível a criação de medicamentos para todas as doenças, houve o abandono de toda uma cultura milenar representada pelo saber das plantas medicinais e a consequente e desmedida valorização apenas dos medicamentos sintéticos.

E então ficou a pergunta: o que fazer com todo o conhecimento adquirido durante séculos com as plantas medicinais? Desprezá-lo? Inutilizá-lo?

É claro que não se deixa de lado qualquer conhecimento adquirido, pois ele é o substrato para maiores avanços da ciência.

Isso nos leva de volta ao foco inicial sobre a influência da formação do médico na sua prescrição.

Apresento a seguir algumas reflexões (dentre tantas outras possíveis) observadas na minha experiência e vivência como profissional de saúde, tanto na esfera pública como privada, para serem objetos de análises sobre essa questão.

“Sim” para a atenção primária, mas “não” para a atenção terciária?

Um primeiro ponto a ser abordado diz respeito à seguinte questão: em que contexto os médicos prescrevem plantas medicinais e fitoterápicos? As principais indicações para o uso das plantas medicinais e dos fitoterápicos encontram-se no âmbito da atenção primária à saúde. É nesse nível de atendimento (postos de saúde, centros municipais de saúde e clínicas de família) que são encontradas as doenças que respondem de modo mais satisfatório aos fitoterápicos. São as doenças mais simples e comuns, isto é, de menor complexidade que afetam o ser humano. Como exemplo, citamos os resfriados, insônia, ansiedade, diarreia e dispepsias, entre outras. Nesse contexto ocorre a maior utilização das plantas medicinais e dos fitoterápicos.

Na atenção secundária (ambulatórios de especialidades), embora haja redução no uso desse tipo de terapêutica, há inúmeros casos já classicamente identificados que mostram bons resultados com esse tipo de tratamento e que podem ser exemplificados como os sintomas de hiperplasia benigna de próstata, sintomas do climatério, doenças reumatológicas e imunomodulação, entre outros.

Atualmente, a fitoterapia é muito pouco empregada na atenção terciária (pacientes do âmbito hospitalar). Como exemplo positivo, apresento o projeto em curso da Associação Brasileira de Fitoterapia (ABFIT), que ocorre em parceria com o Hospital Federal do Andaraí, no Rio de Janeiro, que leva, aos pacientes atendidos nessa instituição, medicamentos fitoterápicos para o tratamento de diversas patologias, entre as quais se destacam doenças reumatológicas severas e câncer em fase adiantada, entre outras, que não estão respondendo adequadamente apenas aos tratamentos convencionais. Os resultados têm se mostrado muito animadores, no que diz respeito à melhora dos sintomas gerais e emocionais, quando se leva em conta a avaliação dos próprios pacientes.

Mas… quais fitoterápicos?

Um segundo tópico a ser levantado é: de que fitoterápicos estamos falando? Sim, pois estes podem ser prescritos em diferentes graus de complexidade e conhecimento. Apresento aqui as principais formas de prescrição em ordem crescente de exigência de conhecimento do tema. Em primeiro lugar, os medicamentos fitoterápicos industrializados, seguidos das preparações caseiras com plantas frescas ou secas (chás, xaropes, tinturas, emplastros e cataplasmas), das formulações fitoterápicas magistrais tradicionais oriundas da medicina tradicional chinesa (MTC) ou da medicina tradicional indiana (ayurveda) e, por fim, da fitoterapia contemporânea.

A forma mais frequente de prescrição médica refere-se aos fitoterápicos industrializados, em geral apresentados aos médicos pelos laboratórios farmacêuticos ou através de propagandas veiculadas em órgãos de comunicação. São menores os requisitos para prescrição, pela necessidade mínima de conhecimento e pela facilidade de obtê-lo através das bulas ou, mesmo simplesmente, pelos dicionários farmacêuticos.

No entanto, será esse conhecimento o suficiente para se prescrever com segurança? As bulas, muitas vezes, sequer fornecem informações essenciais para uma boa prescrição, como qual parte da planta foi utilizada para o preparo do medicamento e por quanto tempo usar. Outro complicador é que alguns desses medicamentos são compostos com mais de uma planta medicinal e embora façam parte do receituário do profissional médico, este por vezes desconhece quais são as espécies contidas no produto, isto é, prescreve apenas pelo nome comercial e sua indicação.

Uma segunda forma de tratar é usando as plantas medicinais através de preparações caseiras. Nesse caso, a exigência de conhecimento necessária é maior, já que envolve outros saberes como o nome popular e científico das plantas medicinais, qual a parte da planta onde estão concentrados os princípios ativos que possuem a ação medicamentosa, quais as diversas formas farmacêuticas e como prepará-las (chás, tinturas, xaropes, cremes), como armazená-las, quais as possíveis contraindicações, efeitos colaterais e interações e, por fim, as doses  indicadas ao paciente. A falta desses conhecimentos e de prática reduz a terapêutica nesse nível.

Um grau maior ainda de conhecimento e estudo aprofundado será exigido do profissional que se dispuser a usar a fitoterapia através do saber das medicinais tradicionais, como a medicina tradicional chinesa ou a medicina ayurvédica, e do mesmo modo a fitoterapia contemporânea. Nesses casos, são necessários anos de estudo, já que deve haver obrigatoriamente um mergulho nos conhecimentos filosóficos que envolvem essas medicinas tradicionais, além dos científicos sobre plantas medicinais. São medicinas milenares que estão em permanente processo de evolução e que fazem parte importante ainda hoje dos sistemas de saúde de seus países. A fitoterapia nas medicinas tradicionais baseia-se na associação de plantas administradas em formas farmacêuticas que podem ser infusões ou decocções, extratos pilulares, cápsulas contendo plantas pulverizadas ou extratos secos, receitados segundo diagnósticos energéticos específicos de cada medicina. Na medicina chinesa são consideradas as desarmonias do yin e do yang, enquanto na ayurveda, desarmonias entre os doshas, representados por Kapha, Pitta e Vata.

A fitoterapia contemporânea é a evolução dos conhecimentos trazidos pelas diferentes culturas, principalmente da MTC, que permite que o profissional de saúde habilitado destaque, além do diagnóstico clínico, outros sinais, sintomas e características individuais fundamentadas nessas medicinas energéticas (calor, frio, estagnação, deficiência, excesso, acúmulo de umidade, fleuma, secura), que incorporados aos conhecimentos científicos sempre atualizados permitam tratar cada indivíduo de forma única e com formulação única. Para tanto, são usadas associações de plantas medicinais de todos os continentes (e não apenas presentes nos livros conhecidos como matéria médica de cada sistema médico tradicional), com estudos científicos atualizados.

Construção do aprendizado

Realço, por fim, que a Política e o Programa de Plantas Medicinais e Fitoterápicos estão inseridos no SUS (Sistema Único de Saúde) e que várias publicações estão disponíveis sobre o assunto, tais como o Memento Fitoterápico da Farmacopeia Brasileira e o Formulário de Fitoterápicos da Farmacopeia Brasileira e que diversas plantas medicinais fazem parte da Farmacopeia Brasileira, que está em sua 5ª edição (faça o download dessas publicações no final deste artigo).

Por tudo isso, não vejo motivos para que até o presente momento a fitoterapia não esteja incluída na grade de matérias da grande maioria das faculdades de medicina de nosso país. Considero esse fato uma séria deformação na construção do aprendizado do profissional médico, já que cria preconceitos e desinformação, o que acaba afastando-o dos valores culturais da população, prejudicando a relação médico-paciente.


Dr. Antonio Carlos Seixlack – Formado pela Faculdade de Medicina de Petrópolis (1980), médico clínico geral com residência médica em clínica médica, fitoterapeuta, especialista em acupuntura, coautor do livro Fitoterapia Contemporânea (Editora Guanabara Koogan), membro do conselho da ABFIT – Associação Brasileira de Fitoterapia e membro da Área Técnica de Plantas Medicinais e Fitoterapia da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.

Este artigo é um resumo do tema apresentado de forma oral pelo autor na mesa-redonda de mesmo título, durante o XXV Simpósio de Plantas Medicinais do Brasil, organizado pelo CEBRID – Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas/UNIFESP, em setembro de 2018, em São Paulo/SP.

Memento Fitoterápico para download
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